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Mostrando postagens com o rótulo home is where your heart is

pessoa suburbana comum

permaneço em minha cama, me cubro com o lençol branco e estampa de folhas outonais. chove lá fora. as gatas sobem na cama e uma delas se aconchega entre minhas pernas, por cima dos lençóis, como se ali fosse seu ninho - caso gatos tivessem ninhos. o barulhinho de chuva, um pingo d'água intermitente parece cair em algo metálico, talvez seja uma daquelas latas de lixo enormes de metal, antigas, como a que uma vez furtaram lá de casa em 1994. nas últimas semanas me empenhei em dotar minha casa de um aspecto que me agradasse, sem gastar com grandes compras e objetos. comprei pregos e um martelo. arrastei os móveis, troquei-os de posição e de cômodos. outro dia comprei uma lata de lixo branca, de metal, não igual a que foi furtada em 1994, mas também com um estilo retrô. na saída do trabalho, comprei um bambu. deve ter 1,7m de altura, ou mais, quase da minha altura, e viajou comigo do santo cristo à freguesia. 4 amigas e um bambu viajante, se eu tivesse 4 amigas comigo em viagem. mas, n...

tristeza e a melancolia

354 mil sílabas se perdem no caminho entre o céu da boca e o nariz, enchendo todo o vazio da minha cavidade oral com palavras não ditas. sigo querendo tentando não podendo recitar nem meio poema, suspensos no ar estão meus desejos e também tudo aquilo que podemos ser. (existe futuro ainda?) acordei pensando em ti, como se resolvesse só buscar saídas novas para velhos problemas. que diferença faz se eu falasse? tudo se repetiu de novo, me vi de novo dilacerado, destroçado; você, de novo, nem coragem teve, só colocou a cara no grindr, dentre outras coisas mais. (era tudo para me atingir?) vago pelos dias como se nem me mexesse, vez ou outra abro uma cerveja, uma garrafa de vinho. rio com amigos, beijos noutros lábios. eu amo dar selinhos, mas que falta faz, ah! eu daria mais beijinhos do que há peixes no mar... e ainda assim, de que me adiantaria? a expectativa do conflito, do confronto, a surdez, a falta de percepção do outro ali, eu me ausentando cada vez mais de mim p...

às vezes quando eu chego em casa

naquele papel, eu ia pro pinel chego em casa e ligo algum aparelho. preciso do som. encho a casa de som. baixo as calças e sento no vaso sanitário. sempre fiz xixi sentado. quase nunca em pé. ouço também o barulho da urina ao encontrar a água parada do vaso. vou a cozinha e frito uma comida qualquer, cozinho um macarrão instantâneo. mastigo tudo com pressa, ouço os barulhos. as gatas são como eu sou: silenciosas. tentamos os três preencher o vazio dos silêncios entre nós. falhamos em excesso. nos olhamos, em momentos distintos, num silêncio pesado que recai sobre nossos olhos. temos os olhares tristes por isso. mas de todos os silêncios que venho carregando, esse último parece ser um dos mais importantes.

registros de um relacionamento conturbado (sobre relacionar-se com meninos brancos mimados)

eu queria escrever a história desde o início, porque minha memória vem falhando cada vez mais. me pego pensando e perdendo os detalhes. eu era tão apaixonado, como que encantado, sob um encantamento complexo e forte demais ao qual não resisti e não pude resistir. às vezes me pego ainda sob esse efeito. recomeçando: queria escrever a história desde o início, mas não só o que foi o meu ponto de vista: a relativização demais dos fatos tornaria a isso tudo uma incongruência sem tamanho. eu não falaria, então, do meu ponto de vista, nem de como me senti, mas sim de como me comportei, do que vi, do que li, do que ouvi. de modo geral, toda vez que nos encontramos, me vejo ouvindo a história ser reescrita. refalada, como se o que tivesse acontecido não tive acontecido, em lugar disso aconteceu o que você me fala 2 anos depois. quando em julho eu perguntei "você quer namorar comigo", essa pergunta ocorreu um mês após eu ser insistentemente perguntado quando eu te pediria em namo...

floating in outer space

dizem que quando os gatos te olham, com aquele olhar profundo de gato, e piscam, lentamente piscam, querem comunicar o amor profundo que sentem pela pessoa objeto de seus tão intensos olhares. no sofá, tentei emular o olhar que recebo de minhas duas gatas. um olhar profundo e profundamente cheio de amor, devoto até as pálpebras fecharem. eu sorrio. envergonhado. seguro lágrimas que querem sair, mas o sorriso não pude deixar escapar. naquele momento me teletransporto para marte, talvez nos teletransporto para marte, aquela terra fria e empoeirada, vazia de gente e emoções. um marte em gêmeos, arguto, mas onde não haveria mais briga. fecho os olhos, viro o rosto para a tv, de forma a esconder o sorriso que se formou. o tempo que se cria nessa viagem pelo espaço sideral talvez seja o tempo que devemos permanecer distantes, um paralelo entre espaço e tempo sacramentando o espaço-tempo em que o próximo evento ocorrerá, em marte (em gêmeos na casa 2) ou vênus (em aquário na casa...

da paz que me conforta e dos sapatinhos que nada me dizem

esse sapatinho não me diz nada; um dois três sapatinhos os sapatinhos não me dizem nada! como no sonho, naquela mesa de bar, nós 3, eu você +1 e eu te beijava, e você sorria, como que gostasse daquilo tudo, eu lhe perguntava "o que foi, pode falar" e ao seu silêncio eu respondia com beijos, beijos que não me arrependi não me arrependo ou como o outro sonho, naquela casa de praia, sua avó num quarto, sozinha, eu chegava e lhe falava "pensei que esta casa estava vazia" e a velha nada me dizia com aquela boca murcha. você não estava. sua mãe abre a porta, chega da rua e diz-me sorrindo "caio, que saudades!, eu te amo muito". eu sinto o abraço dela me envolver e agora, acordado, penso no que você a presentearia de dia das mães, se a menos lembrou disso ou seu pai, que nos apressa para entrar no carro, e você não está. você ainda não fala com seu pai, é isso? e eu entro no carro, vamos em busca de algo, você não está. buscamos você? mas você está...

qual o nome daquilo que se sente quando não se verá alguém nunca mais?

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(eu guardei esse texto como rascunho desde o dia em que, ao visitar tia Nore, ouvi esse relato do primeiro parágrafo, e algumas outras lembranças de sua vida. estive com ela pela última vez no dia 29/07/16 pela última vez, me sorriu, conversamos, rimos. vou sentir sua falta) "LEONOR, LEONOR, LEONOR!", deitada na cama, leonor ouvia chamarem seu nome. um sonho, seu irmão sérgio chamava, e ela, andava, andava, distante, caminhava cada vez mais além. os 91 anos de idade levaram leonor mais longe que outras pessoas. mais tarde, lembrou do detalhe que fora o irmão sérgio quem a chamara de nore quando criança, por achar leonor difícil de falar.  "qual o nome da sua mãe?" perguntaram à olga, que respondeu "dona neném"; vovó não sabia o nome da mãe, benedicta. tia nore disse que ela, a mãe, preferia ser chamada de iolanda, que detestava benedicta. mas vovó explicou na escola que chamavam de dona neném. a professora vai em casa e fala com o pai: "o...

the lights of the metropolis have been turned off

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dementors in privet drive? there's a blackout immediately after that call. the metropolis is dark, though it is not dangerous. not now. the metropolis is only senseless, reason-less. what to do? what not to do? what is it? people think that will never happen (or never happen again): they are inside-out-ly wrong. i wander off, hands in my pocket, dreams terrify me during the long nights. who will i call? who will tell me "oh, you're too much skinny dear". empty, way empty. the metropolis doesn't have a voice, anymore. right now, the metropolis is, just is, no plausible reason to its existence.

home alone partying

right now i feel pretty ok, we have been away for some weeks and this addiction has faded away. am i right on this, of course not. but then, again, my mind - it plays me every once in a while - is making me think of other boys: past ones, new ones, the world is so tiny, i get angry everytime i see you flirting with some other boy i know... but whatever, it's 01:37pm and i'm making a party home alone while listening to some electropop and trying to write something decent on African feminism.

por favor telefonista

pego o telefone e aperto as teclas: 2711-9823. esse prefixo é claramente de niterói, tal como 3396 é da ilha do governador. a ligação segue, alô. a voz é familiar, mas o que vem depois não. vovó já não está em casa. disco 2711-9823 novamente. já ninguém atende. às vezes, eu mesmo atendo. levanto da cama e vou até a sala, atendo. alô. as pessoas estranham a voz masculina que responde. algumas desligam, outras tentam a sorte. vovó ainda está no hospital.  o disco segue, o telefone continua tocando, eu, invariavelmente, continuo ali, esperando.

No CTI tudo é diferente

Tudo é diferente no CTI; aquelas portas semiabertas parecem encerrar uma espécie de parque diversões. Me assusto com as luzes, aquelas lâmpadas amarelas tornam tudo menos ou mais pior do que realmente é. A maquinaria emite sons que parecem uma canção de vídeo game. Ou alguma tentativa experimental de fazer música pop, avant garde . Os leitos estão lá. Por onde passo vejo idosos deitados, familiares a volta. Alguns estão de olhos abertos. Outros me espiam para saber o que farei. No CTI, tudo é diferente.

a mansão decadente

mesmo num dia de chuva, ainda se pode encontrar o caminho para casa. do lado de fora, a mansão decadente. por dentro, um silêncio horroroso me pesava nos ouvidos. me pesa, ainda. eu aqui, vazio, tento, de todas as formas, ficar bem.

I thought the metropolis was full of neon lights pt. 6

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the metropolis remains and stands tall after the rain. as i cross the streets, the buildings remind me of how dumb I am, how pathetic. again, butterflies leave their chrysaliums and agitate my stomach. I am sick, again. I haven't felt like this in a while. I search a doctor,  I must undergo a surgery, these butterflies, they are killing me - the doctor must take them out. kill them. smash them against the walls  (so their beautiful colors will be seen by all). for now, i just suffer, in silence.

da família paterna

Eventualmente me surge na mente o que talvez seja a mais antiga lembrança que tenho. Na escadas da casa velha, a vó l. me segura no colo. Eu choro muito, grito esperneio. Ela aponta um avião no céu. Acalmo. Ouço as palavras "olha lá sua mãe mandando beijo". Minha mãe era comissária. Aeromoça. Sobre a tia m. eu não tenho muitas lembranças. Na minha imaginação ela fuma, muito. Fica parada numa cozinha em Mangaratiba, em Niterói ou na ilha, fumando. Os cabelos pretos, pretíssimos, soltos, um ar meio Gal tropicalista perdida nos confins dos subúrbios da metrópole. Também vem tia m. a minha mente, pegando uma folha de pata de vaca colocando entre as palmas das mãos e então batendo. Emite um som interessante que me faz pedir que faça de novo. Peço pra fazer de novo. Tio c. não me vem muito à cabeça, talvez seja porque minhas referências são majoritariamente femininas. Não conheço sua esposa e eles são casados desde sempre. Não vejo seu filho, meu primo, há sécu...

no se puede predecir el futuro sin tocar la hierba

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o casaco de pele de mamãe sempre me fascinou; diversas vezes estive a ponto de tirá-lo do armário e colocá-lo sobre meus ombros. é aquilo um casaco mesmo, ou algum tipo de echarpe, xale? ou estola? essa é uma palavra boa.  quando era dia de festa, aqui em casa, colocava-se uma manta de pelo, bem peluda. era boa de deitar. ficava ali, mesmo no calor tropical. a luz do sol entrava pela janela, o suor escorria. fazia como aquelas cenas de filme, diminuto, ali, balançando os braços e pernas por sobre a cama, penteando os fios daquela pele. *** ventanas cerradas *** eu acordei no meio da noite, um grito entalado na garganta. não me parecia bom que esses sonhos tivessem voltado; do contrário, me parecia que fossem ruins, horrorosos. abri os olhos e nada parecia anormal, para além da escuridão que eu enxergava. ali, na cama ao lado, naquele canto em que já dormi eu, não estava vó olga, como no sonho, mas a lúcia, a roncar.  tentei lembrar de um dos sonhos, especif...

lit up

num momento, a gente se vê naquele espaço claro, iluminado. as paredes brancas não trazem a sensação de limpeza; elas dão medo, em vez de trazer segurança. pessoas passam aleatoriamente para lá e para cá. ninguém diz nada. alguém vaga sem sentido e direção pelo corredor. parece que vai desmaiar. eu durmo. acordo e vejo o mesmo corredor. passa um carinha do grindr que foi a maior enganação do ano e me pergunta "ficou aí foi". claro que fiquei, ué.

all i want is inner peace

where are you now where are you going,        a infância fica pra trás. dá-se adeus ao passado, quero já chorar. não é só por isso, pela pobreza, pela insegurança, pela incerteza. é pelo que fica atrás, que cada vez mais coisa fica atrás, aquele ser que já não somos, que já não sou e que fica cada vez mais distante.        tudo é diferente, já agora é bem diferente do que foi doze horas atrás, o mundo girou 180º; só 180º, porque, se girasse 360º, teria voltado ao mesmo ponto. já tenho medo, já não sei como ficará, a sorte ataca e dilacera-nos por um instante, mas ao mesmo tempo como se dissesse-nos "vira-te, vira-se".

the first nöel

e chega o momento do primeiro natal sozinho. o silêncio da casa. não foi como eu imaginava. é como um dia qualquer, um dia outro qualquer. se pudesse, aboliria o natal, claro. mas ainda tenho aqui, viva, a lembrança da camisa do flamengo que peguei embalada no pinheiro (de verdade), arrumado para o natal, na sala da casa, então nova.  ou da fita de toy story, no que creio ser o primeiro natal depois de mamãe morrer (e que ainda tenho, guardada).  e de quando o pinheiro, já transplantado para o jardim, morreu por conta dos besouros que deram em seu tronco. e de ir pra casa das tias em laranjeiras para ver o papai noel que uma delas contratava para alegrar o natal da vila em que moravam (ou ainda mora uma delas). do último natal com vó olga, cansada, deitadinha. e eu tentando ler a ordem da fênix, porque eu achava desesperadamente que ela precisava saber o que acontecia naquelas mais de 700 páginas. e dos almoços com vó léa, quando ela vinha pra ilha, e agor...

esfregar azulejos: solução para ansiedade e solidão

i'm feeling lonely and my hair is a mess. a total mess. minha vida é uma merda, também. até pensei em arrumar a árvore de natal. bateu saudades do pinheiro de verdade que ficava num vaso, primeiro, e depois no quintal. lembro da camisa do flamengo que ganhei de natal e usava para lá e para cá. as bolas penduradas na árvore, de seda. as luzes. não lembro se tinha uma estrela brega no alto. bateu também uma vontade de lavar os vidros da cozinha. parei na metade porque os braços cansaram e não tinha escada para alcançar os vidros mais altos. esfregar azulejos é bom para ansiedade. e para deixar a casa limpa.

querendo impossíveis

o silêncio me arrasa, acabei de ouvir essa frase. na casa, sou a única pessoa acordada, creio, mas nao sinto como se estivesse vazia, apesar de parecer a mesma coisa: nunca disse, mas tenho medo quando fico sozinho em casa. me sinto mais vulnerável. mais exposto, apesar de não me importar de ficar sozinho. lembro daquele carnaval que fiquei sozinho e resolvi lavar a cozinha. ela ficou molhada por uns 4 dias, que me lembre. depois na quarta-feira de cinzas, a lúcia chegou e então me ajudou a terminar. e ficávamos vendo filme na tv a cabo, que dias! mas daí que eu ainda sinto medo quando fico sozinho em casa, mais pra hora de deitar. na onda das percepções, queria poder ter só dias chuvosos e ficar em casa, quietinho. ou andar por sta teresa em dias chuvosos e depois ficar debaixo de cobertas. ouvindo a chuva cair. no fundo, essa impressao de querer só o que nao posso ter, de querer ver as coisas como antigamente, o tempo que nao volta, e também, de perceber que isso é impossível, ...