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pluvious metropolis

deitado de bruços, sinto minha saúde cada vez mais tornando-se frágil, a ponto de rasgar a pele que recobre meu tórax, fazendo aparecer as costelas, os músculos e, ali dentro, meus pulmões, meu coração. a chuva cai sobre toda a casa, batendo incessante nas telhas de amianto, escorrendo pelas escadas, alagando o portão. respiro normalmente, mas também acredito que faço uma força exagerada para manter-me assim. nas minhas fantasias, um homem me propõe e me salva desse martírio que é ter de ficar deitado de bruços ouvindo a chuva lá fora cair, um tédio que me assola sem possibilidade de escape, tal qual uma cidade sitiada por um exército monstruoso e sanguinário nada tem a fazer a não ser esperar por alguma intervenção divina poderosa a seu favor.  eu, contudo, também sei que essa fantasia não é nenhuma profecia, nenhum oráculo proferiu palavras nesse sentido; busco na minha memória, então, formas de sacralizar os desencontros da vida. de olhos fechados, um leve gingado desconcertado,...

motoqueiros entregadores (uma ilha imaginária dentro de outra no atlântico)

"camarão cinza de cabo frio que chegou" diz a gravação da kombi que anda pelas ruas do bairro. estou novamente paralisado, adormeci no meio de uma aula a distância. faz frio no rio de janeiro. deitado na cama, vestido mas sem cueca por baixo do short. pego no meu pau e penso a ditadura do pau ereto. lembro daquele dia e imediatamente broxo. penso em como fui um babaca com o lucas l. no outro dia, acho que ele nem vai querer mais sair comigo. acho que o sexo também não é compatível. eu queria poder comer alguém com vontade, e também ser comido com vontade. ao mesmo tempo, no mesmo dia. [lucas l. cantou v. cesar naquela v de viadão em meados de 2015, ou me cantou? estava bêbado e não tenho discernimento; alguns meses depois, numa haus of viadão na banca do andré, enquanto eu tentava flertar com alguém no limite da androginia, lucas l. - já a caminho do after com seus amigos - voltou, sentou ao meu lado no banco, me deu um beijo, riu, levantou e saiu correndo como uma menina col...

pizza expressa na ponte de Londres

maio começa com a promessa de mais um mês de reclusão. me estico na cama, o sol bate em meu tórax, minhas coxas, meu pau. estamos pegando sol, eu e a gata. coloco os pés no batente da janela. acredito que os vizinhos nao conseguem me ver assim pelado. os dias tem sido um passar de horas sem fim. às vezes o ar me escapa, me desespero. sinto fome quase que o tempo todo. entorno copos e copos de água, aos litros, seguido de idas e mais idas ao banheiro, penso que comprar descargas e torneiras com sensores de movimento são bons investimentos e que talvez deva me dedicar a automatizar a casa como um todo.  tusso um pouco, sinto frio, a água do banho cai gelada demais. penso que já é quase hora do almoço, e nesse período de quarentena, eu basicamente permaneço acordando cedo e comendo todas as refeições mais ou menos no mesmo horário. faço todas as refeições, as vezes até mesmo alguma extra. outro dia almocei duas vezes, uma as 13h e outra as 16h, e logo depois emendei um lanche...