pluvious metropolis
deitado de bruços, sinto minha saúde cada vez mais tornando-se frágil, a ponto de rasgar a pele que recobre meu tórax, fazendo aparecer as costelas, os músculos e, ali dentro, meus pulmões, meu coração. a chuva cai sobre toda a casa, batendo incessante nas telhas de amianto, escorrendo pelas escadas, alagando o portão. respiro normalmente, mas também acredito que faço uma força exagerada para manter-me assim.
nas minhas fantasias, um homem me propõe e me salva desse martírio que é ter de ficar deitado de bruços ouvindo a chuva lá fora cair, um tédio que me assola sem possibilidade de escape, tal qual uma cidade sitiada por um exército monstruoso e sanguinário nada tem a fazer a não ser esperar por alguma intervenção divina poderosa a seu favor.
eu, contudo, também sei que essa fantasia não é nenhuma profecia, nenhum oráculo proferiu palavras nesse sentido; busco na minha memória, então, formas de sacralizar os desencontros da vida. de olhos fechados, um leve gingado desconcertado, uma magreza elegante e sisuda que não combina nem um pouco com o calor que faz na área de fumantes.
embaixo dos lençóis e da pesada colcha, reencontro-me com meus antigos calafrios, apesar do tempo que se passou, refuto-os. não os quero. afasto-me deles, tento cada vez mais, até que me deixo envolver num calor sobrenatural que emana daquele corpo - que ainda não provei. fico ali, me deixo carregar como um filhote numa bolsa marsupial, ou talvez eu me agarre ali, tal qual um filhote numa bolsa marsupial que quer ali permanecer.
a chuva cai como uma cortina cinzenta sobre a cidade. eu, deitado de bruços, mantenho os olhos fechados, me deixo abraçar. ali me protejo do temporal que se cria.
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