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Mostrando postagens com o rótulo talking about the world and its things

é preguiça ou ansiedade isso aqui que sinto entre os pulmões?

QUEM DORME SONHA QUEM TRABALHA CONQUISTA sinto uma câimbra, novamente, sexta-feira à noite. disfarço o desconforto, o novo desconforto. passei a noite com a perna esquerda recostada junto a perna de outra pessoa, de um desconhecido, e se eu estivesse noutro dia, em algum outro dia pior que o que estou hoje, pensaria que houve algo mais naquele leve roçar e encostar pernas.  ou como também houve algo mais naquele olhar absorto e vidrado. eu não me acostumo com olhares vidrados e perdidos, prefiro os que tem alguma emoção, menor que seja. o olhar vidrado que tudo reflete, inclusive a aparência que eu, naquele momento, desconfortável gostaria de disfarçar. desconfortável, mas feliz. quarta-feira, dentro de um ônibus da linha 634 , altura da vila do joão, uma jovem mulher sobe pela porta de trás e distribui caixinhas de bala Mentos, junto de um papel com uma mensagem "quem dorme sonha quem trabalha conquista". ela tem o semblante cansado. não fala nada. outros ...

quem foi dandara dos santos

eu não sei quantos minutos levou para dandara dos santos morrer . talvez menos tempo que eu levei processando, vendo as fotos, absorvendo tudo isso que correu o brasil (ainda que insuficientemente). o tempo que eu levei chorando a morte de dandara. naquela hora, dandara perguntava "cadê a minha mãe? eu quero a minha mãe" -  e a mãe lá não estava, como na infância em que [eu] [nós] [qualquer um indefeso] clamava por mãe nalgum momento de infortúnio, infelicidade, tristeza. mas não prestes a morrer. teria dandara destino diferente? diferente da morte filmada, televizada, viralizada na internet das coisas que se tornou o brasil? ela, dandara dos santos, travesti cearense, da periferia, ela que tentou a vida no sudeste, tal qual outros milhões de migrantes, e retornou a sua terra: o desejo do brasileiro medíocre do sudeste, que os nordestinos voltem para o nordeste... como se possuíssem aquele espaço geográfico, donos daquilo que disseram construir. às custas de que, de ...

hasta siempre, 2017

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نا الصحراوية // eu sou saarauía habibi, habibi : mais um fim de semana em casa, espraiado na cama, no sofá. espraiado pela casa pequena com as gatas. a casa que encolhe. o quarto que se varre em 5 segundos (em contraposição ao quarto que se varria em 5 minutos). a casa que encolhe, encolhe comigo dentro. habibi, habibi, canto para a gata que adormecida repousa em minha cama, espalhando seus pelos. habibi, habibi, sim!, ainda há esperança, canto feito canção de ninar, para acalmar as gatas de que, sim, sim!, ainda há jeito para esse mundo cheio de trumps e hillarys e temers e bolsonaros, a década de 2010 parece emular 1910, 1810, 1710, 1610, a história se repete primeiro como tragédia depois como farsa, quantas farsas temos vivido? quanto mais teremos que passar, hem, quanto mais acontecerá para que deste mundo se passe ao paraíso, a shangri-lá, a terra de zaratustra? ouvi que as montanhas do cáucaso, a irlanda, gales e a cornualha transbordam de magia, deve ser pela chuva abund...

o Bangladesh é aqui [no Rio de Janeiro]

choveu o total de 48h seguidas no Rio de Janeiro nessa semana de novembro; choveu o dia de ontem inteiro. anteontem, um temporal se armou, temporada de monções. o Bangladesh é aqui. o vento úmido que arrasa Bengala passou aqui: precarização da vida cotidiana em todos os níveis, todos os sentidos. o Bangladesh, repito, é aqui. até mesmo as disputas políticas entre clãs familiares parecem se repetir. o Bangladesh já foi Paquistão. o Paquistão, este também, é aqui [e também a Índia]. hoje faz céu azul, azulíssimo, daqueles que doem [a vista]. os passarinhos cantam passada a tempestade. será assim no Bangladesh? os passarinhos e as pessoas também riem diante da catástrofe passada, da catástrofe presente e, também, ainda, da futura? provavelmente [sim][não]. o vento permanece gélido. sinto frio dentro de casa. penso no meu piano. sento ao computador como se aguardasse a resolução de meus problemas, como se aguardasse a solução dos problemas do Rio de Janeiro, do Brasil, do mundo.

i am thoroughly left alone

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try hard: Africa is just there as i listen to the dixie chicks truth hit me hard  i am thoroughly left alone the other day when the bus passed across the bridge i realized all i wanted was to see africa across the atlantic ocean and what is my life if not this: wishing what is impossible desiring anything beyond my hands touch, my cold hugs and i hate these free verses poems for they really mean is i am thoroughly left alone
and then it came to me: life is all about the choices you make when there's actually no choice to make.

o silêncio necessário

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autorretrato "silent boy". rio de janeiro, 2016 a maior das verdades sobre a minha vida é que passei a maior parte dela em silêncio. quando criança, biricando em silêncio, no máximo simulando o barulho dos automóveis que passavam na rua principal, acima da minha casa. nunca, diálogos. nunca. me acostumei assim, a ouvir as músicas ou até mesmo o bucolismo do bairro, que chega a ser insuportável nas madrugadas e domingos. deve ser por isso que odeio tanto os domingos: são mais silenciosos e melancólicos do que eu mesmo consigo ser.  quando menino, às vezes eu me enfiava dentro do armário, ali tinha um compartimento em que eu cabia, junto de um guarda-chuva estampado do hércules. ficava ali pelo tempo necessário para o choro ou mesmo para somente sumir e aproveitar o calor, o suor e o silêncio. "você goza em silêncio" ele me disse, mas eu já tinha me percebido, não ali, não pouco antes: já desde cedo eu tinha percebido que o gozo não precisa ser essa c...

cut the transmission line

one break-up after another, as if something existed; the years pass and i am the same, naive, alone or i'm not the same, crazier than ever, imagining things, suffering for others and because of others. life is unfair, but isn't it what i myself keep repeating to others when they're in trouble? maybe i should give everything up and just internalize this shit that's allover my being (and deep in my mind, i have already accepted).

vãs palavras vazadas pelas frestas / sunset blvd [2]

joe, no fim das contas, não passou desses robôs. inteligências artificiais, sentimentalidades forjadas, falsas. please, hate me, joe. e joe me odiou, bem como a mocinha que podia ter qualquer nome [que também me odiou, em seu estilo mais quieto e calado], em qualquer filme e/ou época. agora, tudo faz sentido: a primeira cena, eu - lá do alto - vejo a mocinha me encarando, misto de fascínio e curiosidade, mas depois faz mais sentido como visão, previsão: o futuro. eu, norma desmond, que me cai como luva, louco-pirado, autor-algoz, apagando-me do mundo de forma altiva e brilhante, descendo as escadas como que aguardando o close-up para finalizar a cena.

a vida na cidade ex-maravilhosa pós-moderna pós-colonial / da mudança

faltam cinco para as 23 do dia 26 de outubro de 2014, dia de eleição nessa terra de vera cruz. hoje, mais que nunca, eu me vejo no automático: o trajeto casa-trânsito-trabalho-trânsito-casa parece ser a coisa mais natural do mundo, a mim, principalmente. mas vez ou outra, como que numa alternância entre estar chapado e estar sóbrio, volto à superfície e me pego agoniado, me encontro num beco, vem o choro, o nó na garganta. eu me encontro num mundo, num mundo que é mundo e beco ao mesmo tempo. mundo porque é enorme, e eu mal conheço a cidade que vivo. beco, porque pequeno, estreito, mesquinho, a instantaneidade que aflige minha geração, ainda desacostumada. e eu que aprendi a crescer esperando, e ainda espero. esperei os 18 anos, os 20. antes de tudo, esperei os 11 anos, e minha carta de hogwarts não chegou. beco porque eu vejo a mesquinhez, e que me perdoem, eu posso ser mesquinho, também. porque vejo o mundo, atroz, veloz, matando, explorando, desejando, atraindo. o mundo...

das festas lotadas

acho que foi só no outro dia que eu percebi a ausência das referências, para tudo. não sinto aquela falta de ninguém. de nada. não sei simular felicidade. o humor varia do apático para o estressado. para o nervoso. nada além disso. acho que poucas vezes me senti feliz. a vida é feita dessas coisas. qual o sentido de entrar num local cheio, ver gente semi-conhecida, falar com semi-conhecidos. ali, todos me eram estranhos. fiz figuração de cena, quando devia nem ter aparecido on stage , ou back stage . "olha, menino", uma mão passa pelos meus cabelos, e eu sento. sozinho. não enxergo as estrelas, que diferença faz? alguém me oferece um cigarro e eu sopro, escondido e delicadamente, antes de tragar. não sei tragar e, também, não quero aprender. a vida já era muito bad para tragar. que diferença faz? e eu ali, figurante, na festa mais-que-lotada. dos momentos que a gente se sente sozinho mesmo com gente a volta. que diferença faz.

a outra maria das dores

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já faz um bom tempo que acompanho a maria das dores, sentada na sua cadeira de plástico, as muletas ao lado, os tênis de alturas diferentes para facilitar a vida dela, que foi atropelada e teve o pé amputado. vejo maria das dores da janela do meu ônibus. virou meio que um ritual; todos os dias, sento perto da janela e, quando se aproxima o semáforo, olho para a direita, a fim de ver maria das dores sentadinha, às vezes conversando, às vezes parada olhando o asfalto, tão algoz quanto o carro e seu motorista de seus infortúnios. não que a vida dela tenha mudado muito, desde então. ela ainda vende doces e balas aos pedestres que perambulam por aquele canto esquisito da cidade, perto da rodoviária. memória guerreira não se apaga nunca! maria das dores fica ali sentada, escondida, à sombra, até que as trump towers apareçam. não sabe quando isso acontecerá, mas já ouviu boatos de que a vida mudará. mudará mais que quando teve o pé esquerdo amputado (e mesmo assim jura para o marido ...

a vida da maria das dores

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outro dia, eu vi a maria das dores sentada num meio-fio, uma lata de cerveja aos pés. maria das dores tinha cara de sofrida, porém, estava sentada à sombra, o que amenizava a dor. a dor de morar na rua. maria das dores era uma preta velha nesse dia. cada dia, eu acho que vejo uma maria das dores diferente. mas nesse dia, maria das dores era uma preta velha. quando voltei, maria das dores não estava mais sentada no meio-fio. ela tinha-se ido. VULTOS: prédio abandonado em Itaboraí. especulação imobiliária foi vagar noutras paragens. era dia de jogo do brasil, mas maria das dores não veria jogo algum. para maria das dores, não era copa. nunca seria. nem copa nem cozinha: maria das dores não tinha casa. queria poder escrever a história da vida da maria das dores, mas a história dela é assim, simples, curta e grossa: maria das dores, mulher, preta, velha, sem-teto, sem-casa, homeless . marginal. cansada. faminta. para maria das dores, não teve copa. nem terá. não cabe aqui meu juí...

procura-se: novidade

queria dar vazão aqui a tudo isso que ocorre. faz tempo que sinto assim bem, mas no outro dia eu fiquei assustado. assustado de ver e ouvir e ser tocado. fiquei confuso. fiquei com raiva. fiquei triste. daí eu fugi, fugi para longe. hoje no ônibus eu pensei em algo genial para compartilhar; além de ser isso (genial de contar), era um título também ótimo. agora às 15:40 já não lembro de quase nada, não lembro de muita coisa, só o pinga-pinga desse ar-condicionado aqui atrás de mim e esse tédio que preenche o vazio da sala. as coisas mudam tão rápido e ao mesmo tempo ficam a mesma coisa; era outro dia e eu tava ali debaixo de um guarda chuva. outros dias depois tinha chuva também e eu comia um cachorro-quente vagabundo debaixo dos arcos da lapa. será que naquele outro dia tinha também chuva? a memória nos prega peças. agora, talvez, eu já me lembre do que pensava no ônibus e talvez se tratasse de ânsia de viver, de querer que as coisas viessem rápido, acontecessem rápido. mas tudo ...

mb: fera ferida

zapeando pela internet, a gente lê de tudo e quase sempre se identifica com o que lê. bom, eu, pelo menos, me identifico com a quase totalidade de coisas que vejo e leio por aí (nao só na internet). pois que li, num mesmo blog, recém achado, sobre uma pessoa que 1) teve um sonho frustrado por outrem com pouco tato e 2) foi chamado de gordo por outrem de seu círculo íntimo. eis que me identifiquei com isso. nao exatamente com tudo, mas com a situação. quem nunca teve sonhos frustrados por palavras nao exatamente amigas? pois é. passei a vida inteira querendo algo, que era ser normal, bonito, interessante. daí passei num momento da vida achando que eu era isso. mas sempre tem aquele momento de medo, em que tudo balança. uma pequena frase, que ecoa desde sábado. um olhar de desdém, umas risadas bobas. as pessoas, às vezes, nao tem noção. mais do que eu vim a fazer naquela noite, isso me feriu primeiro. uma sucessão de socos, pontapés e facadas na mente, no coração, em tudo. nao sei ...

queria ser um avestruz

sempre a mesma história. estou tão arrependido e fico me perguntando o que estou fazendo da minha vida. nao lembro de mais da metade da minha noite, do que falei, fiz, o que me motivou. Que merda, só penso nisso. alguns momentos eu queria ter essa certeza de que fazemos coisas com objetivos. de que existe algum porque na vida, nos encontros, nos desencontros, nas ações...  Mas nesse momento eu só queria mesmo ser um avestruz e enfiar a cabeça num buraco no chão e sair de lá só depois de muito tempo pensando. 

life is (anything) (nothing) (something) but a dream

eu nao sei quantas vezes exatamente eu já disse que uma estante nova ou prateleiras resolveriam minha vida (assim mesmo, num passe de mágica). mas nao são só as estantes ou prateleiras que resolveriam minha vida, claro. eu teria que ter minhas câmeras de volta. funcionando. é uma droga, isso de não ter nenhuma câmera funcionando. além da câmera eu precisaria de algo que me permitisse registrar o mundo a minha volta, claro, e compartilhar tudo com o mundo. e isso, ao mesmo tempo que quero exatamente descompartilhar. desconectar. eu via o documentário life is but a dream , da beyoncé , e vejo exatamente o que quero: poder registrar, anotar, fazer recordações sobre o que me ocorre no decorrer da vida.

gente seca

outro dia li um pedido de ajuda desesperado: I***E A. 28 ANOS 6 CASADA SEM FILHOS. como se ajuda alguém nessas condições? outro dia vi também passarinho mancando, que pena que dó. êta vida dura.

sos vida real

a internet me empobreceu. nao só financeiramente (visto tudo que já gastei ou até mesmo deixei de ganhar por conta do que vi e fiquei vendo nessa telinha) mas me empobreceu temporalmente, me prendendo aqui nessa cadeira de rodinhas nessa mesma posição, com o ombro esquerdo dolorido que só eu sei, me impedindo de ver televisão, me impedindo de ler um bom livro, tornando meu vocabulário limitado, mas tão limitado, que eu até nem sei mais escrever. sos

o tempo, ele nao muda.

finjo a normalidade apesar de no outro dia ter corrido na direção contrária dos manifestantes e da polícia, também, e no fim pisar numa poça e encharcar meus tênis que já estão super furados. passei o resto da noite com as meias encharcadas mas depois de meia garrafa de vinho tinto seco barato já não ligava mais ou o calor do vinho fez a água evaporar. nao tinha ninguém interessante naquela festa. ou tinha, mas no fundo não tinha, de verdade. engraçado como li ainda há pouco "o tempo é resposta, mas ele passa e a história continua a mesma" e não poderia ser nem mais engraçado, mesmo, nem mais verdade; não sei se forço essa história ou me não deixo o tempo passar ou o que seja, mas é engraçado como naquela noite, para variar, você estava lá como em qualquer outro momento. whatever, né. vida que segue. afinal, o tempo muda tudo.