o silêncio necessário

autorretrato "silent boy". rio de janeiro, 2016
a maior das verdades sobre a minha vida é que passei a maior parte dela em silêncio. quando criança, biricando em silêncio, no máximo simulando o barulho dos automóveis que passavam na rua principal, acima da minha casa. nunca, diálogos. nunca.

me acostumei assim, a ouvir as músicas ou até mesmo o bucolismo do bairro, que chega a ser insuportável nas madrugadas e domingos. deve ser por isso que odeio tanto os domingos: são mais silenciosos e melancólicos do que eu mesmo consigo ser. 

quando menino, às vezes eu me enfiava dentro do armário, ali tinha um compartimento em que eu cabia, junto de um guarda-chuva estampado do hércules. ficava ali pelo tempo necessário para o choro ou mesmo para somente sumir e aproveitar o calor, o suor e o silêncio.

"você goza em silêncio" ele me disse, mas eu já tinha me percebido, não ali, não pouco antes: já desde cedo eu tinha percebido que o gozo não precisa ser essa coisa berrada, gritada. para mim, basta o gozo em si e observar a cena, a outra cara que se mantém a minha frente, talvez nós dois mudando nossas feições. o meu silêncio é necessário pois eu preciso me manter atento a isso: ao outro, a mim, a nós dois. 

ao exagero, sempre acho um exagero necessário, no máximo desenho um sorriso em meus lábios e isso me basta: sentir, sorrir, observar, simular.

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