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Mostrando postagens com o rótulo bad fiction work

o marido da D. Aparecida

foi em 1999 quando o marido da aparecida começou a virar pó. ela era loura e sua filha tinha os dentes acavalados, e seu marido definhava literalmente. ela virava para vovó e falava "ah, hoje eu varri um pouquinho mais o pó".  imagino o dia em que aparecida, sozinha em casa com o marido que virava pó, muniu-se de um aspirador de pó portátil, daqueles automotivos, entrou no quarto sem demonstrar intenção, e aspirou o marido. talvez um aspirador portátil não fosse suficiente, e ela teve que ir e voltar várias vezes, esvaziando o compartimento do aspirador na pia da cozinha. desde então, eu sempre tive medo de virar pó. na cama, no banheiro, na roupa, procuro traços, será que essa sujeirinha aqui fui eu quem deixei?, e fico noiado se estou, como o marido da aparecida, me reduzindo a pó por onde ando.

no metrô tropical

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o metrô no trópico é diferente noutro dia, eu te vi no metrô. carregava um embrulho, andava sorridente. cara de bobo, meio orgulhoso com o embrulho, totalmente feliz. eu, ali, naquele vagão mal iluminado, datado dos anos 1980, sentei-me quando deu, perto o suficiente para lançar meus olhares furtivos. penso se quem te espera, espera feliz.  um apartamento qualquer de frente para a praia, sentindo aquele fog que tomou conta do rio de janeiro, misto de poluição e maresia. o cheiro salgado no ar que acalma a espera. se prepara a janta enquanto espera. se poderia ser eu a esperar. eu, ali, olhando, vendo a felicidade alheia. é 2020, na verdade. os vagões são modernos, bem iluminados. eu, sozinho, vejo-te feliz no vagão do metrô, numa fotografia, um metrô moderno, iluminado, em paris. metrôs modernos e bem iluminados já estarão velhos, defasados e mal iluminados pelos trópicos cariocas.

a outra maria das dores

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já faz um bom tempo que acompanho a maria das dores, sentada na sua cadeira de plástico, as muletas ao lado, os tênis de alturas diferentes para facilitar a vida dela, que foi atropelada e teve o pé amputado. vejo maria das dores da janela do meu ônibus. virou meio que um ritual; todos os dias, sento perto da janela e, quando se aproxima o semáforo, olho para a direita, a fim de ver maria das dores sentadinha, às vezes conversando, às vezes parada olhando o asfalto, tão algoz quanto o carro e seu motorista de seus infortúnios. não que a vida dela tenha mudado muito, desde então. ela ainda vende doces e balas aos pedestres que perambulam por aquele canto esquisito da cidade, perto da rodoviária. memória guerreira não se apaga nunca! maria das dores fica ali sentada, escondida, à sombra, até que as trump towers apareçam. não sabe quando isso acontecerá, mas já ouviu boatos de que a vida mudará. mudará mais que quando teve o pé esquerdo amputado (e mesmo assim jura para o marido ...

a vida da maria das dores

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outro dia, eu vi a maria das dores sentada num meio-fio, uma lata de cerveja aos pés. maria das dores tinha cara de sofrida, porém, estava sentada à sombra, o que amenizava a dor. a dor de morar na rua. maria das dores era uma preta velha nesse dia. cada dia, eu acho que vejo uma maria das dores diferente. mas nesse dia, maria das dores era uma preta velha. quando voltei, maria das dores não estava mais sentada no meio-fio. ela tinha-se ido. VULTOS: prédio abandonado em Itaboraí. especulação imobiliária foi vagar noutras paragens. era dia de jogo do brasil, mas maria das dores não veria jogo algum. para maria das dores, não era copa. nunca seria. nem copa nem cozinha: maria das dores não tinha casa. queria poder escrever a história da vida da maria das dores, mas a história dela é assim, simples, curta e grossa: maria das dores, mulher, preta, velha, sem-teto, sem-casa, homeless . marginal. cansada. faminta. para maria das dores, não teve copa. nem terá. não cabe aqui meu juí...

sempre domingos

sentado na mureta, esperando a vida passar junto dos carros e motos que entopem uma rua pequena. algumas pessoas passam também e mandam olhares, ora surpresos, ora ameaçadores. tenho fones no ouvido e me desligo dos sons ao redor; a vida parece boa e má, ao mesmo tempo. os acontecimentos parecem bons e ruins, ao mesmo tempo. tipo aquela vez que andei por botafogo, ate chegar à Copacabana pelo túnel velho. com fones no ouvido. o mundo não poderia parecer mais pacífico e ameaçador no mesmo momento. um silêncio que pesava, a não ser pela música que saía dos fones. talvez, nesse dia, eu não estivesse com fones, afinal. talvez eu tenha ouvido tiros. talvez. foi nesse dia que acabei dormindo e suando num sofá, engraçado como a gente lembra dessas coisas (todos os dias). engraçado como minha mente lembra das coisas e eu fico pensando porque não trepei com fulano daquela vez. se fosse agora, seria diferente. estaríamos trepando ouvindo norah jones, já pressentindo o fim dessa porcaria que cham...

banho quente faz mal pra pele

saio do banho correndo e atendo o celular que toca enraivecido no criado-mudo. "alô, sr Caio c k martins? O SENHOR GANHOU UM MILHÃO DE REAIS". olho meu quarto estupefato. meu quarto está arrumado. minha vida está arrumada. o que mais eu poderia querer? talvez fazer respiração boca-a-boca num cãozinho nenê. mas nao. ********* saio do banho correndo e atendo o celular que toca enraivecido no criado-mudo. "oi amor vem pra cá logo, você ta demorando" olho meu quarto estupefato. meu quarto está arrumado. minha vida está arrumada. o que mais eu poderia querer? talvez fazer respiração boca-a-boca num cãozinho nenê. mas nao. ********* nao saio do banho correndo. nunca tomo banho quente, mas essa semana ta esquisita. Teve aquele dia que nao quis levantar, algo meio físico, sabe.  mas saio do banho, e na caixa de som kylie minogue canta "i was gonna cancel" ou "sexercise", ou qualquer outra musica eu fico contemplativo. ja tinha...

andar de kombi no rio de janeiro: não é fácil.

"saída da ilha ramos olaria penha" o moço anuncia, assim mesmo, sem pausas, pelo microfone, e abre as portas. eu entro naquele espacinho miúdo, que mais parece um caixote de fósforos que um transporte. não sei porque estou falando de pegar kombis aqui, mas deve ter sido porque foi o transporte mais rápido que utilizei nos últimos tempos. nalgum momento qualquer, o motorista-cobrador-anunciante-de-trajeto parou e, então, sobem duas senhoras, uma idosa carregando seu neto e uma outra senhora jovem carregando os dois filhos. naquele espaço, apertando-se para as crianças caberem ali. a vó aperta o neto e fala algumas baboseiras carinhosas, e talvez tenha sido aí que eu resolvi falar disso. aquela gente que pega kombi deve ser gente humilde, só pode. não há outra explicação. a vó que busca o neto na escola e vai lhe acarinhando pelo caminho da volta, enquanto uma das filhas da jovem senhora, de por volta de 5 anos, uma cara um tanto emburrada e carrancuda vai olhando, com aq...

num piscar os olhos

correria, movimentos musculosos, músculos músculos roupa fina e aplausos piscadela isso engana alguma coisa? treme treme as perninhas tremem muito brilho, brilho das luzes do batom dela, dos seus olhos, agora fumaça, estamos ali perdidos rodopiando piando feito passarinhos, fumaça passa de mim pra você você pra mim alguém varre o chão a música que toca não faz diferença e essa eterna brincadeira de tentar e não conseguir e às vezes eu penso.

cena 1, tomada 1

[garoto sentado olhando para o céu através dos janelões. mulher de uns 40 anos digitando freneticamente. garoto avista um pássaro no canto superior direito. pássaro voa em círculos. pássaro mergulha, tornando-se maior e maior. pássaro quebra o vidro e carrega o garoto para o infinito.]

do afogamento

eu estou ali naquela igreja, a da candelária, ou seria a da sé? o padre reza uma missa num português arrastado, quase parece latim, ou mesmo que seja latim. eu olho os afrescos, aqueles anjos todos, aquela coisa triste, talvez meio fúnebre, eu me deparo com a pia batismal e meu reflexo nela; o que eu vejo é repugnante, eu olho e procuro ao redor e não me imagino de noivo, vestido de noivo e de noiva, o padre agora fala em português claro "o noivo, por favor, o noivo O NOIVO" ele já berra, "OS FILHOS, OS FILHOS, O PAI, O ESPÍRITO SANTO" amém, eu corro, corro para fora da igreja, corro por entre os carros na rua, corro pela praça, esbarro em pessoas, mas quem se importa?, eu não choro, não soluço; eu corro até não sentir minhas pernas, eu pulo, eu me jogo no mar, e me afogo em detritos.

baboon.

Me desculpa, mas é que muitas coisas não fazem sentido. Lembra daquele bilhetinho, aquele maldito que eu lhe dei naquele também maldito dia? Então, eu retirei de um daqueles biscoitinhos da sorte dessas pastelarias chinesas - [pausa] - Mas você não precisava responder, não havia nada no código civil que lhe obrigasse, ou seja lá que código seja, você não será penalizado, é isso, é isso que quero dizer, exatamente. Agora eu não entendo, tem ruído? Tem falha na ligação? Tá me ouvindo? Merda! - [disca de novo] - Oi, oi, eu não entendo! Você não me ouve, puta merda.  Troquei o aparelho, agora tou usando aquele preto com vermelho. Não, não aquele todo vermelho, aquele é da casa da minha tia, em Laranjeiras... ela vai bem, bem sim, digo indo, né... certa idade - [muitas falas] - É muito triste, mas é o ciclo da vida, ou da morte, quem sabe não escrevo sobre isso... Pois é, detesto cemitérios, sabe [pausa mais alongada] Sim, chorei bastante, faziam tempos, acho que unas seis ano...

O tucano e a periquita.

A porta abria e fechava, e era um vai-e-vém de pessoas. Apesar disso, os dois estavam ali, aparentemente, ou realmente, alheios, completamente alheios da situação que se desenrolava ao lado. Eram o tucano e a periquita. Mas o importante dessa história não é o que o tucano e a periquita falavam um para o outro, o que talvez seja ininteligível, ou mesmo desinteressante, mas sim o que se assucedeu ali, naquele pequeno espaço a céu aberto chamado de área de fumantes de uma casa noturna. E que o tucano e a periquita viram e ouviram. Era o que se chamava de nada. Era nada que se passava entre todas aquelas pessoas, e coisas; nada se passava entre o bêbado e o segurança, ou entre o bêbado e a pedra portuguesa que rolava solta pelo chão, ou mesmo entre o tucano e a periquita, ou entre o sapo e a coruja, e enfim, entre Ele e Ela. Ele e Ela se encontraram  no dia sabe-se-lá-quando, em sabe-se-lá-onde, e sabe-se lá como. Só se sabe que Ele e Ela tinham nada um pelo outro, e nada faziam. ...

Horoscopando - This Week's Horoscope.

Aquário - 23/01/2010 a 30/01/2010 A semana pode parecer longa. A influência de Urano sobre Marte pode ocasionar brigas pontuais em seu local de trabalho, nada que um almoço não possa resolver todos os problemas e divergências. No decorrer da semana há grande possibilidade de sentir muito sono, principalmente quando Mercúrio entrar na 4ª Casa; tome cuidado com as finanças! A ação nefasta de Saturno, na 6ª Casa, sobre as finanças dos aquarianos mostra-se com todas as forças nessa semana que antecede o pagamento. Deve também tomar cuidado ao andar pelas calçadas: o movimento da Lua da 2ª para a 3ª Casa, e a má manutenção dos passeios públicos da cidade criam uma grande chance de se cair em um buraco ou tropeçar e torcer os dois tornozelos. Ainda sob influência da Lua, recomenda-se evitar cortes de cabelos curtos, o que trará consequências negativas logo após o Solstício de Inverno. Apesar de ser um planetóide, Plutão ainda atua excessivamente sobre a vida do aquariano: sua rela...

Coisas de mulher.

Disca o número. A ligação cai na secretária: - Sua chamada está sendo encaminhada para a Caixa de Mensagens. Por favor, deixe sua mensagem após o bipe. Bipe. Acende um cigarro, e assiste à ponta queimar, cheirando a fumaça fétida que se espalha pelo ar. Olha as horas, impaciente; não se conforma de que ele ainda não retornou a ligação. Ela finge estar interessada na conversa, dando alguns palpites vez ou outra.  Ela apaga o cigarro nos braços do sofá. Olha as horas novamente. Suprime uma lágrima. Os olhos já estão vermelhos a essa altura. Parece que usou alguma coisa, ou seus olhos são sempre assim. Na verdade, olhos bem esquisitos ela tem, de lambisgóia, até se diria, coisa esquisita mesmo; dão a impressão de gente que não se leva a sério. Olhos rasgados. Levanta, anda até a janela. Põe a cabeça para fora; não há ninguém à vista, nenhuma alma que possa ser vista. O telefone toca. Ela corre para a bolsa, desesperada. Lógico. Era ele. Sorri, ao ouvir a voz....

Uma excelente piada

Há de se convir que não era das melhores noites de Dezembro; havia ameaça de chuva, e o vento estava frio. Mas mesmo assim, a festa estava de pé, e as preparações iam em vento e popa. Já era de tarde quando, finalmente, resolveu se arrumar: pegou sua toalha de algodão-egípcio, 3.200 fios, sim senhor, uma senhora toalha. Diz-se que o algodão é plantado em uma pequena ilha no delta do Rio Nilo, e o algodão é colhido a mão por velhotas egípcias, da Igreja Copta, que entoam cânticos cada vez mais alto à medida que suas cestas se enchem daquela coisa felpuda e branca. Trancou-se no banheiro. Como era ótimo estar ali, naquele banheiro, de mármore preto. Abriu as cinco torneiras da banheira, e separou os óleos, espumas, sais, tudo que se precisaria para um banho antes de uma festa. Colocou, na vitrola, Edith Piaf; mudou de ideia, e preferiu Tim Maia. Terminado o banho, era hora de escolher o figurino. Abriu o seu armário, e escolheu seu melhor vestido; estava um pouco puído, e as traça...