sempre domingos
sentado na mureta, esperando a vida passar junto dos carros e motos que entopem uma rua pequena. algumas pessoas passam também e mandam olhares, ora surpresos, ora ameaçadores. tenho fones no ouvido e me desligo dos sons ao redor; a vida parece boa e má, ao mesmo tempo. os acontecimentos parecem bons e ruins, ao mesmo tempo. tipo aquela vez que andei por botafogo, ate chegar à Copacabana pelo túnel velho. com fones no ouvido. o mundo não poderia parecer mais pacífico e ameaçador no mesmo momento. um silêncio que pesava, a não ser pela música que saía dos fones. talvez, nesse dia, eu não estivesse com fones, afinal. talvez eu tenha ouvido tiros. talvez. foi nesse dia que acabei dormindo e suando num sofá, engraçado como a gente lembra dessas coisas (todos os dias). engraçado como minha mente lembra das coisas e eu fico pensando porque não trepei com fulano daquela vez. se fosse agora, seria diferente. estaríamos trepando ouvindo norah jones, já pressentindo o fim dessa porcaria que chamam de amor. ou eu estaria lavando louças (ou acariciando-as, como diz lúcia), quando ele chegaria por trás e daria um chamego no meu pescoço e me contaria segredos de liquidificador. mas não há nada disso, rubbish. a mim, a vida nada reserva. somente caipirinha e o direito de ouvir "thinking about you" da norah aos domingos. god bless norah and me and those ridiculous rights that i deserve. mas juro que no momento não estou mal, é só coisa passageira, como se de repente lembrasse do que é viver e toda a confirmação que isso pede e então a tristeza se dissipasse; como clarissa dalloway que por lembrar o motivo da tristeza, vê-a passar e torna-se feliz de novo. não como richard, que olha clarissa e pensa "isso é felicidade", que toca em suas mãos e pensa "isso, isso é felicidade". isso, não. a mim, nada disso a vida reserva. nem a literatura. mas agora, agora já passou da hora e deixei tudo pra trás. a concha fechou de novo, tentei abrir e então fechei porque não havia necessidade, mesmo. não, não é nada demais. talvez eu tenha sonhos estranhos, é a vida. talvez eu tenha conversas estranhas. talvez eu sinta saudades, principalmente daquilo que não tive, não terei ou não posso não ter de novo. life is not fair. de novo, não quero soar amargurado demais, mas só que hoje é domingo.
só hoje eu permito o repeat da musica melancólica à exaustão.
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