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serviço expresso de entrega

a imensidão cinza circunda a ponte rio-niteroi; a minha vista não alcança mais o mar, eu não vejo as ondas trêmulas em direção à costa. uma tristeza me acompanha nessa travessia.
o que me aguarda la? eu nao sei. vejo um navio petroleiro. não consigo perceber se está ancorado ou em movimento. o trânsito é intenso, também, e eu fico de certa forma agradecido por ter esses minutos para me dedicar a imensidão cinza do dia de hoje.
chego a um bar e peço ao garçom uma caipirinha, apesar do meu estômago vazio. a tristeza me tira o apetite; um barulho e a dor no abdômen talvez desmintam essa minha frase, mas eu permaneço fiel ate o final (ao sei la o que pode ser) (tudo).
(bebo 3 caipirinhas) (o mundo gira) (choro)
às 20h eu decido me levantar e deixar na portaria duas sacolas. niteroi já me viu fazer isso antes, não será a primeira nem a ultima vez. ou será a última?
a sacola rasga, sob pesada chuva. me abaixo diversas vezes para deixar os pares de meias completos e seguros. ando abraçado à…

o marido da D. Aparecida

foi em 1999 quando o marido da aparecida começou a virar pó. ela era loura e sua filha tinha os dentes acavalados, e seu marido definhava literalmente. ela virava para vovó e falava "ah, hoje eu varri um pouquinho mais o pó". 
imagino o dia em que aparecida, sozinha em casa com o marido que virava pó, muniu-se de um aspirador de pó portátil, daqueles automotivos, entrou no quarto sem demonstrar intenção, e aspirou o marido. talvez um aspirador portátil não fosse suficiente, e ela teve que ir e voltar várias vezes, esvaziando o compartimento do aspirador na pia da cozinha.
desde então, eu sempre tive medo de virar pó. na cama, no banheiro, na roupa, procuro traços, será que essa sujeirinha aqui fui eu quem deixei?, e fico noiado se estou, como o marido da aparecida, me reduzindo a pó por onde ando.

pixelado amor

faz frio: no rio de janeiro, 20ºC significa muito frio. agora deve estar 17ºC e eu me deito cedo. deito e me cubro, após fechar as cortinas, apagar as luzes.
me cubro com lençol, faz frio. fecho os olhos, eu poderia chorar. vi um pornô qualquer, dois três; tropical latinoamérica, ouço aquele álbum que tu colocaste noutro dia que transamos no teu quarto. uma transa romântica? sim, uma guinada definitiva naquele dia do que poderíamos ter sido somente. 
transamos romanticamente com teus pais no quarto ao lado, a noite la fora silenciosa naquele pedaço entre icaraí e santa rosa. fazia frio como num outono temperado. agora faz frio como num outono temperado. me cubro e me esparramo na cama de casal, sozinho. 
eu queria ligar, queria ouvir e falar. queria, tambem, chorar do nada, mas nao consigo; deito as 18h na esperança de que o tempo passe e eu permaneça aqui sem fome, sem vontade, sem nada. essa vontade de chorar aleatória que aflige 3% da populaçao carioca me agarra.
no escuro, sinto …

try not to fear but forget

hoje pós almoço me abate uma ansiedade que não sei de onde vem: se das respostas mal dadas, a conversa que não evolui, ou do preço salgado que a refeição me custou. imediatamente começo a passar mal. o almoço quase me sai pela boca. volta até o céu da boca, eu quase vomito.  sete dias atrás minha mochila acaba vomitada por um nenê no ônibus enquanto eu distraído ouço música. sábado de manhã eu chego em casa e as 8:14 eu peço desesperado que me liguem. eu não devia nunca fazer isso, desesperado ainda por cima. a cortina fechada, a cama e o travesseiro me embriagam. eu queria que alguém entrasse no quarto de repente e me comesse naquela hora mesmo, no estado que eu estava. às 8:15 adormeço. às 11:26 eu acordo, totalmente embrigado pela pouca luz que a cortina causa, o lençol, o travesseiro. transpiro no pescoço. a cabeça dói. levanto e vou ao banheiro. esse ritual de se ajoelhar para o vaso é quase inexistente, mas eu me dedico mesmo assim. bebo água. enfio o dedo na garganta, como se …

toma aqui os 50 reais

makes you wonder why you even try still don't know how i even survive
o mais difícil é acordar e ter essa vontade de não fazer nada; ficar na cama. culpar a gata que não levanto pois ela se apoia em mim para dormir. eu não posso despertá-la, eu não devo.
me arrasto pelos cômodos da casa. me arrasto pelas ruas. as pernas pesam como chumbo ao subir no coletivo que me leva daqui para lugar nenhum: me levam para onde eu não tenho nada a fazer.
me visualizo a jogar 50 reais e falar "desculpa, eu não posso continuar isso aqui, não hoje. não hoje, não posso continuar". eu sempre me desculpo até quando a culpa não é minha.
e é como eu já disse; a vida não é um eterno recreio de jardim de infância em que a gente se empurra, deixa o outro de castigo no alto da gangorra, só para vê-lo esfacelar-se no chão quando se toma a decisão de que a brincadeira chegou a um limite e a diversão já não interessa.
por enquanto, resigno-me ao silêncio do sacolejar dos coletivos e do mundo.

da paz que me conforta e dos sapatinhos que nada me dizem

esse sapatinho não me diz nada; um dois três sapatinhos os sapatinhos não me dizem nada! como no sonho, naquela mesa de bar, nós 3, eu você +1 e eu te beijava, e você sorria, como que gostasse daquilo tudo, eu lhe perguntava "o que foi, pode falar" e ao seu silêncio eu respondia com beijos, beijos que não me arrependi não me arrependo ou como o outro sonho, naquela casa de praia, sua avó num quarto, sozinha, eu chegava e lhe falava "pensei que esta casa estava vazia" e a velha nada me dizia com aquela boca murcha. você não estava. sua mãe abre a porta, chega da rua e diz-me sorrindo "caio, que saudades!, eu te amo muito". eu sinto o abraço dela me envolver e agora, acordado, penso no que você dá-la-á de presente de dia das mães, se a menos lembrou disso ou seu pai, que nos apressa para entrar no carro, e você não está. você ainda não fala com seu pai, é isso? e eu entro no carro, vamos em busca de algo, você não está. buscamos você? mas você está lá, ess…

i thought the metropolis was full of neon lights pt. 11 (final)

a porta aberta deixa entrar luz suficiente para vislumbrar os corpos nus sobre o colchão. eu falo "não penso que estou disponível emocionalmente para isso agora". eu repito "acho que estou semi indisponível para qualquer coisa como essa que você me fala". 
dos seus lábios saíram as palavras "eu gosto de você", com um ar doído, sofrido, como que se as palavras relutassem em serem sopradas garganta afora e ganhar o mundo. ganhar materialidade. elas pesaram no ar que preenchia o espaço entre nós, e desabaram logo sobre o colchão.
desabaram sobre o gozo que ali secava. desabaram sobre você, meio de costas pra mim. falando de costas pra mim. eu lhe olho, como foi que você disse antes? eu não lembro.
as pessoas parecem ter o poder de me prender; talvez minha resposta seja esse olhar, penetrante, atencioso. esse olhar trágico sanpaku que me acompanha desde a primeira tragédia a que me acostumei, antes de todas as outras que viriam
eu não já não lembro como você…

querido tom 67

querido tom,
quanto tempo, não é mesmo? e em que furada eu fui me meter! como da última vez, acabei de ler o provérbio árabe "se a palavra é prata, o silêncio é ouro" e isso me acabou trazendo uma calma. verdade? mentira?
a tentativa não tem eficácia - é isso mesmo? continuo aqui na mesma tentativa: a história cíclica, o assombro, aquele fantasma... mas tu, como bom ouvinte, já sabes toda essa baboseira de que me refiro. será que dessa vez terei um final diferente? o medo é tão grande. 
ao fim disso, dessa comunicação, é, novamente, mais do mesmo e nada novo sob o sol do rio de janeiro: como tu me conheces, permaneço aquele mesmo que te escreveu da primeira vez quando arrancava os sisos e perdia o juízo - imaturo, emocionalmente; vazio, afetivamente.
há espaço para mudar?