Postagens

try not to fear but forget

hoje pós almoço me abate uma ansiedade que não sei de onde vem: se das respostas mal dadas, a conversa que não evolui, ou do preço salgado que a refeição me custou. imediatamente começo a passar mal. o almoço quase me sai pela boca. volta até o céu da boca, eu quase vomito.  sete dias atrás minha mochila acaba vomitada por um nenê no ônibus enquanto eu distraído ouço música. sábado de manhã eu chego em casa e as 8:14 eu peço desesperado que me liguem. eu não devia nunca fazer isso, desesperado ainda por cima. a cortina fechada, a cama e o travesseiro me embriagam. eu queria que alguém entrasse no quarto de repente e me comesse naquela hora mesmo, no estado que eu estava. às 8:15 adormeço. às 11:26 eu acordo, totalmente embrigado pela pouca luz que a cortina causa, o lençol, o travesseiro. transpiro no pescoço. a cabeça dói. levanto e vou ao banheiro. esse ritual de se ajoelhar para o vaso é quase inexistente, mas eu me dedico mesmo assim. bebo água. enfio o dedo na garganta, como se …

toma aqui os 50 reais

makes you wonder why you even try still don't know how i even survive
o mais difícil é acordar e ter essa vontade de não fazer nada; ficar na cama. culpar a gata que não levanto pois ela se apoia em mim para dormir. eu não posso despertá-la, eu não devo.
me arrasto pelos cômodos da casa. me arrasto pelas ruas. as pernas pesam como chumbo ao subir no coletivo que me leva daqui para lugar nenhum: me levam para onde eu não tenho nada a fazer.
me visualizo a jogar 50 reais e falar "desculpa, eu não posso continuar isso aqui, não hoje. não hoje, não posso continuar". eu sempre me desculpo até quando a culpa não é minha.
e é como eu já disse; a vida não é um eterno recreio de jardim de infância em que a gente se empurra, deixa o outro de castigo no alto da gangorra, só para vê-lo esfacelar-se no chão quando se toma a decisão de que a brincadeira chegou a um limite e a diversão já não interessa.
por enquanto, resigno-me ao silêncio do sacolejar dos coletivos e do mundo.

da paz que me conforta e dos sapatinhos que nada me dizem

esse sapatinho não me diz nada; um dois três sapatinhos os sapatinhos não me dizem nada! como no sonho, naquela mesa de bar, nós 3, eu você +1 e eu te beijava, e você sorria, como que gostasse daquilo tudo, eu lhe perguntava "o que foi, pode falar" e ao seu silêncio eu respondia com beijos, beijos que não me arrependi não me arrependo ou como o outro sonho, naquela casa de praia, sua avó num quarto, sozinha, eu chegava e lhe falava "pensei que esta casa estava vazia" e a velha nada me dizia com aquela boca murcha. você não estava. sua mãe abre a porta, chega da rua e diz-me sorrindo "caio, que saudades!, eu te amo muito". eu sinto o abraço dela me envolver e agora, acordado, penso no que você dá-la-á de presente de dia das mães, se a menos lembrou disso ou seu pai, que nos apressa para entrar no carro, e você não está. você ainda não fala com seu pai, é isso? e eu entro no carro, vamos em busca de algo, você não está. buscamos você? mas você está lá, ess…

i thought the metropolis was full of neon lights pt. 11 (final)

a porta aberta deixa entrar luz suficiente para vislumbrar os corpos nus sobre o colchão. eu falo "não penso que estou disponível emocionalmente para isso agora". eu repito "acho que estou semi indisponível para qualquer coisa como essa que você me fala". 
dos seus lábios saíram as palavras "eu gosto de você", com um ar doído, sofrido, como que se as palavras relutassem em serem sopradas garganta afora e ganhar o mundo. ganhar materialidade. elas pesaram no ar que preenchia o espaço entre nós, e desabaram logo sobre o colchão.
desabaram sobre o gozo que ali secava. desabaram sobre você, meio de costas pra mim. falando de costas pra mim. eu lhe olho, como foi que você disse antes? eu não lembro.
as pessoas parecem ter o poder de me prender; talvez minha resposta seja esse olhar, penetrante, atencioso. esse olhar trágico sanpaku que me acompanha desde a primeira tragédia a que me acostumei, antes de todas as outras que viriam
eu não já não lembro como você…

querido tom 67

querido tom,
quanto tempo, não é mesmo? e em que furada eu fui me meter! como da última vez, acabei de ler o provérbio árabe "se a palavra é prata, o silêncio é ouro" e isso me acabou trazendo uma calma. verdade? mentira?
a tentativa não tem eficácia - é isso mesmo? continuo aqui na mesma tentativa: a história cíclica, o assombro, aquele fantasma... mas tu, como bom ouvinte, já sabes toda essa baboseira de que me refiro. será que dessa vez terei um final diferente? o medo é tão grande. 
ao fim disso, dessa comunicação, é, novamente, mais do mesmo e nada novo sob o sol do rio de janeiro: como tu me conheces, permaneço aquele mesmo que te escreveu da primeira vez quando arrancava os sisos e perdia o juízo - imaturo, emocionalmente; vazio, afetivamente.
há espaço para mudar?

da ansiedade e seus mini-choques

[segunda] apoio minhas mãos sobre meus joelhos ossudos e inclino a cabeça em direção ao banco da frente. pela janela, entra uma fresca brisa que, se estivesse calor, me acalmaria. mas não é calor o que sinto, tampouco a brisa me acalma.
olho a volta, giro o pescoço, procuro. volto a atenção da minha mente para as palmas das minhas mãos, esticadas, sobre os joelhos, na esperança de que isso, sim, vai me trazer calma; tentativa frustrada como a de rae earl em my mad fat diary (nota mental: assistir novamente).
(vejo um policial gato na rua)
[sábado] acordo e olho o teto. me movimento da cama em direção ao sofá. deito novamente. adormeço. o nó na garganta me impede de falar. adormeço. calafrios perpassam meu corpo, como que mini-choques. os mini-choques tornam o sono difícil, mas o sono é melhor que estar acordado. não consigo falar.
não consigo falar, apesar de saber que deveria vomitar aquilo que está em minha cabeça. mas o que está em minha cabeça? não consigo identificar; o nó na ga…

do lado de fora da janela

do lado de fora da janela
os passarinhos cantam
e os raios de sol brilham
há vida daquele lado
enquanto aqui, deste lado
eu me esparramo pela cama,
olho o teto e inutilmente
me perco nos pensamentos
nos meus pensamentos
de que a vida aqui,
do lado de dentro da janela
onde os passarinhos não cantam
e os raios de sol brilham
fracos, através das cortinas
e eu, deitado na cama
olhando o teto
perdendo as horas
sinto no estômago toda
a ânsia de viver esvair-se
pelos intestinos escorrendo
até meus pés imóveis
até que ouço o ronrom
e a gata sobe ao meu lado
deitada na cama
a olhar o teto inutilmente
perdendo-se nos pensamentos
felinos
mas de que a vida aqui
do lado de dentro da janela
tem motivo para ronronar
[apesar de os passarinhos
cantando assoviando
estarem, como sempre
do lado de fora da janela]


Q&A: por que, caio?

por que, caio? por que? posso inventar +1 motivo pra disfarçar; baby, baby, baby: vamos ser sinceros  a cena repete noutro canto da metrópole, mas ainda às 9h da manhã eu estou sentado no colo de alguém. olho para o alto e tapo os olhos, arrasto a mão pelos cabelos, como que pensando, mas naquela hora só penso em como estou novamente viciado em enroscar os pés & ficar abraçado, sentido o suor, a camisa suada, o cheiro de suor leve.
o corpo quente, as meias sujas que sobrepostas mostram um contraste do que a cena realmente é. eu, ali, por cima, sem camisa; você, por baixo, com camisa. eu, cheio de pudor, você, despudorado. eu poderia seguir: caça-caçador, contido-voraz, despretensioso-_________;
o que, mesmo? essa última, é o que mesmo? ali, além do suor escorrendo pela febre que passava ou pelo calor do momento, eu via o suor escorrer pela tentativa de compreender o que era aquilo, e agora nem eu mesmo sei o que foi aquilo, o que é aquilo, o que será. ri, ri despretensiosamente, …