pizza expressa na ponte de Londres
maio começa com a promessa de mais um mês de reclusão. me estico na cama, o sol bate em meu tórax, minhas coxas, meu pau. estamos pegando sol, eu e a gata. coloco os pés no batente da janela. acredito que os vizinhos nao conseguem me ver assim pelado.
os dias tem sido um passar de horas sem fim. às vezes o ar me escapa, me desespero. sinto fome quase que o tempo todo. entorno copos e copos de água, aos litros, seguido de idas e mais idas ao banheiro, penso que comprar descargas e torneiras com sensores de movimento são bons investimentos e que talvez deva me dedicar a automatizar a casa como um todo.
tusso um pouco, sinto frio, a água do banho cai gelada demais. penso que já é quase hora do almoço, e nesse período de quarentena, eu basicamente permaneço acordando cedo e comendo todas as refeições mais ou menos no mesmo horário. faço todas as refeições, as vezes até mesmo alguma extra. outro dia almocei duas vezes, uma as 13h e outra as 16h, e logo depois emendei um lanche.
anoitece, olho o celular e vejo alguma mensagem, uma nude qualquer "podia ser a gente". finjo que estou interessado, não sei até quando dura essa rotina, e não quero sair da quarentena sem opções de transar. retribuo. adormeço, assim também, às vezes num sufoco de pensar se estou respirando bem, se estou oxigenando.
acordo e olho os dedos, as unhas, acredito que estão roxas. movimento os dedos para que o sangue chegue às pontas, e assim fiquem aquecidos. agora mesmo olhei-os e parecem perfeitamente rosados. é tudo uma grande piração. verifico as notificações do celular e leio "queria que você estivesse aqui. dia frio e nublado. saudades". retribuo, aqui também faz um dia frio e nublado.
me levanto. a minha solidão de homem moderno sem terapia me acompanha a todos os lados. procuro formas de me sentir menos sozinho. aguardo a próxima mensagem. aguardo a próxima pizza direto da city londrina.
eu tenho feito quarentena com minha família, a privacidade praticamente não existe, dividimos o quarto e a casa inteira, às vezes vou na lage ficar um pouco no silêncio. É complicado deixar de sair e respirar um pouco
ResponderExcluir