pessoa suburbana comum
permaneço em minha cama, me cubro com o lençol branco e estampa de folhas outonais. chove lá fora. as gatas sobem na cama e uma delas se aconchega entre minhas pernas, por cima dos lençóis, como se ali fosse seu ninho - caso gatos tivessem ninhos. o barulhinho de chuva, um pingo d'água intermitente parece cair em algo metálico, talvez seja uma daquelas latas de lixo enormes de metal, antigas, como a que uma vez furtaram lá de casa em 1994.
nas últimas semanas me empenhei em dotar minha casa de um aspecto que me agradasse, sem gastar com grandes compras e objetos. comprei pregos e um martelo. arrastei os móveis, troquei-os de posição e de cômodos. outro dia comprei uma lata de lixo branca, de metal, não igual a que foi furtada em 1994, mas também com um estilo retrô.
na saída do trabalho, comprei um bambu. deve ter 1,7m de altura, ou mais, quase da minha altura, e viajou comigo do santo cristo à freguesia. 4 amigas e um bambu viajante, se eu tivesse 4 amigas comigo em viagem. mas, não, era somente eu, solitário, primeiro no VLT e depois no ônibus que, acelerado, fez o trajeto de 20km em 1 hora, do centro para o subúrbio.
passei o bambu para seu novo vaso de cerâmica - ou terracota, se eu quisesse soar mais fino. disse-lhe "seja bem vinda a sua nova casinha, essas são suas amigas", apresentando às outras plantas em vasos de cerâmica ou de plástico que estão na varanda. as gatas gostaram do bambu: logo o cercaram e ficaram mastigando suas folhas, tal como dois pandas fariam nas florestas da China.
a máquina de lavar faz sua música, afinal ela tem um tambor onde se colocam as roupas. aguardo, ponho uma panela de alumínio mais velha que eu para ferver. penso se alumínio causa câncer, e quanto eu teria de doenças após quase 30 anos cozinhando e comendo o que preparado em panelas de alumínio velhas. a modernidade não chega para todos...
estendo as roupas ainda úmidas, termino de preparar a cozinha. apago as luzes, levo meu copo d'água para o quarto. chamo as gatas. deitamo-nos, faz frio. aninhamo-nos os três. as cortinas cerradas ainda permitem que eu veja as luzes acesas na cozinha do síndico. as janelas fechadas também me permitem ouvir que há alguém ali. fecho os olhos, devaneio, respiro fundo...
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