a vida da maria das dores

outro dia, eu vi a maria das dores sentada num meio-fio, uma lata de cerveja aos pés. maria das dores tinha cara de sofrida, porém, estava sentada à sombra, o que amenizava a dor. a dor de morar na rua.

maria das dores era uma preta velha nesse dia. cada dia, eu acho que vejo uma maria das dores diferente. mas nesse dia, maria das dores era uma preta velha. quando voltei, maria das dores não estava mais sentada no meio-fio. ela tinha-se ido.

VULTOS: prédio abandonado em Itaboraí. especulação imobiliária
foi vagar noutras paragens. era dia de jogo do brasil, mas maria das dores não veria jogo algum. para maria das dores, não era copa. nunca seria. nem copa nem cozinha: maria das dores não tinha casa. queria poder escrever a história da vida da maria das dores, mas a história dela é assim, simples, curta e grossa: maria das dores, mulher, preta, velha, sem-teto, sem-casa, homeless. marginal. cansada. faminta.

para maria das dores, não teve copa. nem terá. não cabe aqui meu juízo sobre se tem copa pra mim não, foda-se isso. só que naquele dia, naquela hora, embaixo das árvores fugindo do sol quente, estava maria das dores.

no meio tempo em que fui e voltei, maria das dores deve ter terminado a cerveja. ou vai ver era só uma latinha vazia que ela havia achado e que logo juntaria às outras que catara num saco velho ao seu lado. será que maria das dores almoçara? ou almoçaria?

muitas, muitas dúvidas. muita, muita dor.

não aguentei olhar mais que de relance, mais que 3 segundos, a vida da maria das dores.

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