O tucano e a periquita.
A porta abria e fechava, e era um vai-e-vém de pessoas. Apesar disso, os dois estavam ali, aparentemente, ou realmente, alheios, completamente alheios da situação que se desenrolava ao lado. Eram o tucano e a periquita. Mas o importante dessa história não é o que o tucano e a periquita falavam um para o outro, o que talvez seja ininteligível, ou mesmo desinteressante, mas sim o que se assucedeu ali, naquele pequeno espaço a céu aberto chamado de área de fumantes de uma casa noturna. E que o tucano e a periquita viram e ouviram.
Era o que se chamava de nada. Era nada que se passava entre todas aquelas pessoas, e coisas; nada se passava entre o bêbado e o segurança, ou entre o bêbado e a pedra portuguesa que rolava solta pelo chão, ou mesmo entre o tucano e a periquita, ou entre o sapo e a coruja, e enfim, entre Ele e Ela. Ele e Ela se encontraram no dia sabe-se-lá-quando, em sabe-se-lá-onde, e sabe-se lá como. Só se sabe que Ele e Ela tinham nada um pelo outro, e nada faziam. Ou pelo menos desejavam ter nada, e expressavam, verbalizavam isso a vozes altas para todos os Outros, de modo que se tornasse a mentira em verdade.
Mas ali, naquele momento, Ela descobriu ser impossível ter nada com Ele, quando Ele, subitamente, fez o que é direito quando não se tem algo com alguém, ou seja, quando se tem nada com alguém, e foi ter nada com outra pessoa também. É das dores mais lancinantes que se pode ter, e que se pode sentir, esceto talvez, um parto normal, ou amputar uma perna, ou qualquer outro membro. Ou apendicite. Enfim, Ela teve um coração rachado, e seu sistema nervoso central teve de ser controlado.
Todos sabemos, por exemplo, que cães tem alguma coisa por seus donos. Todos vemos que cães latem quando veem seus donos se abraçarem com outras pessoas, ou acariciar outras pessoas e outros cães, o que pode ser pior. Percebemos que o coração rachado dói mais quando o objeto de afeto mais se assemelha em forma e conteúdo a quem sente o coração rachar.
Nesse caso, podemos imaginar o quão insuportável foi para Ela ver e sorrir ao ver Ele ter nada com outra pessoa. Ela sorriu e engoliu em seco. Sim, Ela era uma excelente atriz, vencedora de prêmios, e formada pela Escola da Vida. "É um teste, só pode ser um teste", Ela pensou, e pôs-se a traquinar um jeito de escapar daquilo, algo meio James Bond, mas não havia maneira. Olhou para os lados, e todos apresentavam sorrisos amarelados, demonstrando apoio nenhum a sua causa. "Mas foi você quem disse que era nada", agora Ela já podia escutar em sua mente a voz esganiçada da coruja.
Não teve jeito, ela engoliu em seco novamente, e tentou prosseguir a conversa como se nada tivesse visto a dois metros. Levantou do meio-fio, e, talvez algo tivesse atingido sua cabeça, como uma pedra atirada pelo tucano, a cena girou, e de repente, lá estava Ela a gritar e empurrar, e cuspir enraivecida, e novamente a gritar e a virar os olhos, gritar coisas sem sentido, e rasgar a roupa. Parecia um cão raivoso. A sua volta, ninguém parecia prestar atenção, ou realmente não prestavam atenção, visto que tudo não passava de um delírio.
"A gente é feito pra acabar". Até o nada é feito pra acabar.
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