o marido da D. Aparecida

foi em 1999 quando o marido da aparecida começou a virar pó. ela era loura e sua filha tinha os dentes acavalados, e seu marido definhava literalmente. ela virava para vovó e falava "ah, hoje eu varri um pouquinho mais o pó". 

imagino o dia em que aparecida, sozinha em casa com o marido que virava pó, muniu-se de um aspirador de pó portátil, daqueles automotivos, entrou no quarto sem demonstrar intenção, e aspirou o marido. talvez um aspirador portátil não fosse suficiente, e ela teve que ir e voltar várias vezes, esvaziando o compartimento do aspirador na pia da cozinha.

desde então, eu sempre tive medo de virar pó. na cama, no banheiro, na roupa, procuro traços, será que essa sujeirinha aqui fui eu quem deixei?, e fico noiado se estou, como o marido da aparecida, me reduzindo a pó por onde ando.


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