a vida na cidade ex-maravilhosa pós-moderna pós-colonial / da mudança
faltam cinco para as 23 do dia 26 de outubro de 2014, dia de eleição nessa terra de vera cruz. hoje, mais que nunca, eu me vejo no automático: o trajeto casa-trânsito-trabalho-trânsito-casa parece ser a coisa mais natural do mundo, a mim, principalmente.
mas vez ou outra, como que numa alternância entre estar chapado e estar sóbrio, volto à superfície e me pego agoniado, me encontro num beco, vem o choro, o nó na garganta. eu me encontro num mundo, num mundo que é mundo e beco ao mesmo tempo.
mundo porque é enorme, e eu mal conheço a cidade que vivo. beco, porque pequeno, estreito, mesquinho, a instantaneidade que aflige minha geração, ainda desacostumada. e eu que aprendi a crescer esperando, e ainda espero. esperei os 18 anos, os 20. antes de tudo, esperei os 11 anos, e minha carta de hogwarts não chegou.
beco porque eu vejo a mesquinhez, e que me perdoem, eu posso ser mesquinho, também. porque vejo o mundo, atroz, veloz, matando, explorando, desejando, atraindo. o mundo maravilha, o beco do horror. e eu me vejo, jovem, perdido, pequeno, com anseios, nesse turbilhão, nadando contra a corrente, tentando.
era junho de 2013 e meus amigos foram todos para a rua, e eu mesmo quis ir, num primeiro momento. vibrei por eles e com eles, e me preocupei por eles, quando reprimidos. reprimidos fisicamente, pois que já somos reprimidos, não? e lá eles estavam, marchas de cem mil, um milhão. mas espera, que um milhão é esse? ouvi dos que de vermelho apanharam, das bandeiras rasgadas.
era isso que significaram as jornadas de junho? me abstenho, não participei porque tive medo; me escondi, pequeno, perdido, com anseios e antes de tudo, com medos. e esperei, mais um pouco.
era lá em 2009 e eu descobri, me descobri. o que é a juventude, senão, tudo? e eu comecei a me perceber, a ser o que era. e eu esperei. era 2012, eu me descobri mais, as coisas são engraçadas, uma alfinetada e a gente se percebe com a dor do mundo, a falta de esperança, mas eu esperei.
um processo, eu me descobrindo mais. me vendo no espelho, me vendo no reflexo das pupilas das mocinhas que me atenderam. me percebendo, os defeitos, as glórias, o que eu era. o que sou.
e então, chega 2014: ano de eleição. mas não uma qualquer, uma após um momento de revolta e insatisfação. eu mesmo estava insatisfeito. mas, ao mesmo tempo, me percebendo: garoto, jovem, branco, órfão, pobre, brasileiro, suburbano, hipster (será?), gay, pintosa, latino americano, PERIFÉRICO. comunista, socialista do século xxi. enfim, minoria. a identidade de minoria, me dei conta. me percebi como elemento desprotegido.
tive mais medo, que mundo é esse? que discursos são esses? por que tanto ódio? o que é essa estrutura, esse poder que emana de não sei onde e controla tudo. a relatividade.
a relatividade. ditadura gay-feminazi-comunista-negra-indígena. ditadura do capitalismo-financeiro-consumista. a tecnologia, a sociedade da informação. e as pessoas que andam tão desinformadas? ou eu que tenho a visão tão turva pela minha condição?
no fim, estamos todos no mesmo barco, alguns remam para cá, outros para lá, e eu vou olhando a paisagem, como faço do ônibus. fotografo. relativizo, mas não tudo. levanto mais vezes, ponho a voz mais grossa e faço olhar duro.
e eu, grato por quem sou, grato por ter chegado aqui, vivo, pelo que me aconteceu, pelo que vivi, chorei, sorri, ri feito bobo, tive medo, de tudo que desejei, de quando quis que o tempo voltasse (e ele, felizmente, não voltou). hoje, eu, aqui, feliz pelo que sou, minoria, não a minoria das minorias, mas minoria, empático pelos outros, pelo mundo, pela situação. sem ser super homem, sem poder fazer a diferença, sem poder transformar o mundo para aquilo que quero.
e apesar de tudo, das desinformações, da destruição, da construção, da violência física e simbólica, do dia-a-dia, do não-estar-onde-quero-estar, eu, feliz, ou ok, normal, como costumo falar. apesar da poluição, da camada plúmbea que cobre a cidade ex-maravilhosa-pós-moderna-pós-colonial do rio de janeiro.
e sigo, junto dos meus, na luta, na crítica, na esperança, nas alternativas, sendo alternativa, sendo a diferença, sendo zen, aguentando, sonhando e, acima de tudo, consciente, me percebendo e mudando.
isso é maravilhoso
ResponderExcluirvocê é maravilhoso, que bom que já descobriu isso
esse texto me deu amor