da paz que me conforta e dos sapatinhos que nada me dizem

esse sapatinho não me diz nada;
um dois três
sapatinhos
os sapatinhos não me dizem nada!
como no sonho, naquela mesa de bar, nós 3, eu você +1 e eu te beijava, e você sorria, como que gostasse daquilo tudo, eu lhe perguntava "o que foi, pode falar" e ao seu silêncio eu respondia com beijos, beijos que não me arrependi
não me arrependo
ou como o outro sonho, naquela casa de praia, sua avó num quarto, sozinha, eu chegava e lhe falava "pensei que esta casa estava vazia" e a velha nada me dizia com aquela boca murcha. você não estava. sua mãe abre a porta, chega da rua e diz-me sorrindo "caio, que saudades!, eu te amo muito". eu sinto o abraço dela me envolver e agora, acordado, penso no que você a presentearia de dia das mães, se a menos lembrou disso
ou seu pai, que nos apressa para entrar no carro, e você não está. você ainda não fala com seu pai, é isso? e eu entro no carro, vamos em busca de algo, você não está. buscamos você? mas você está lá, essa ausência não é preocupação, eu não acordo mal.
adormeço de novo, o sonho muda mas é continuidade
contínuo
agora estamos nós, eu não lembro bem. mas isso importa? não, a presença importa. talvez eu lhe beije como no primeiro sonho, eu já não sei. às vezes sinto uma paz, quando durmo sinto uma paz. abro a porta e a gata sobe à cama. a gata ronrona. eu sinto paz. a gata me lambe. eu sinto paz. a gata sobe em minha barriga, a gata é como si num momento de paz, a olhar-me com olhos tristes e sérios como se quisesse me dizer algo. mas nenhum dos dois me diz nada, apenas paz.
paz.
eu deito e espero dormir. os olhos sanpaku me doem. eu mando mensagens, disparo mensagens, textos, gritos, poemas, emails gigantes: não me bastam. os olhos sanpaku doem muito hoje. você sabe o que são olhos sanpaku? minha professora de geografia vaticinou "você é um sanpaku"; anos depois eu busquei o que era. preferia não tê-lo feito. preferia a paz dos dias em que deitamos sobre a sua cama, eu deito a cabeça em seu travesseiro;
afundo a cabeça no travesseiro com teu cheiro, o lençol com teu cheiro de suor
suor que passa pra mim
cheiro de gozo, também
penso em quantos gozam ali, além de mim
quantos suam ali, além de mim
melhor não pensar
e me ater
a essa paz
enquanto me abraça
e dormimos 
juntos
até eu acordar sozinho

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