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dia nascente

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eu, de novo, ali, feito bobo. com medo. não chego em mais ninguém, não sei mais flertar. preciso da reinvenção. eu, perdido no espaço-tempo, de novo, sem saber o que fazer. a certeza da inexistência do nós. a ponto de fazer uma besteira sem tamanho. outro dia me controlei para segurar uma bandeja qualquer e não esgueirar minha mão pelos braços da poltrona. múltiplos braços, de plástico, tecido, epitélio. os tecidos que se esbarram mas não produzem atrito: ver a cena que foi a boca semiaberta, o céu clareando. eu to inventando tudo isso.

esfregar azulejos: solução para ansiedade e solidão

i'm feeling lonely and my hair is a mess. a total mess. minha vida é uma merda, também. até pensei em arrumar a árvore de natal. bateu saudades do pinheiro de verdade que ficava num vaso, primeiro, e depois no quintal. lembro da camisa do flamengo que ganhei de natal e usava para lá e para cá. as bolas penduradas na árvore, de seda. as luzes. não lembro se tinha uma estrela brega no alto. bateu também uma vontade de lavar os vidros da cozinha. parei na metade porque os braços cansaram e não tinha escada para alcançar os vidros mais altos. esfregar azulejos é bom para ansiedade. e para deixar a casa limpa.

contempla, constata, não entende (variação)

ali, semi-escondidos atrás da porta, parecia que eu tinha uma escolha a fazer. mas não, a vida é feita dessas pequenas surpresas, e de tanta doideira... quase que no escuro, na penumbra, guardando segredos. um discurso que melhor seria repetido de forma mais inflamada, para arrebatar a multidão que o ouvia: eu. eu, sozinho. entrevi uma cabeça que se espremia pela fresta da porta, e logo se retirou. a realidade voltava como baque, e eu, aturdido, perdido. para variar. a volta, contemplação. tentativa, sem sucesso. mais contemplação. constatação: rio, cidade pós-moderna, pós-colonial, ainda periférica. ainda selvagem. o céu sem estrelas. as estrelas no chão, nos morros. a vegetação. a igreja da penha. contempla, contempla, sem entender. para variar.

a vida na cidade ex-maravilhosa pós-moderna pós-colonial / da mudança

faltam cinco para as 23 do dia 26 de outubro de 2014, dia de eleição nessa terra de vera cruz. hoje, mais que nunca, eu me vejo no automático: o trajeto casa-trânsito-trabalho-trânsito-casa parece ser a coisa mais natural do mundo, a mim, principalmente. mas vez ou outra, como que numa alternância entre estar chapado e estar sóbrio, volto à superfície e me pego agoniado, me encontro num beco, vem o choro, o nó na garganta. eu me encontro num mundo, num mundo que é mundo e beco ao mesmo tempo. mundo porque é enorme, e eu mal conheço a cidade que vivo. beco, porque pequeno, estreito, mesquinho, a instantaneidade que aflige minha geração, ainda desacostumada. e eu que aprendi a crescer esperando, e ainda espero. esperei os 18 anos, os 20. antes de tudo, esperei os 11 anos, e minha carta de hogwarts não chegou. beco porque eu vejo a mesquinhez, e que me perdoem, eu posso ser mesquinho, também. porque vejo o mundo, atroz, veloz, matando, explorando, desejando, atraindo. o mundo...

das festas lotadas

acho que foi só no outro dia que eu percebi a ausência das referências, para tudo. não sinto aquela falta de ninguém. de nada. não sei simular felicidade. o humor varia do apático para o estressado. para o nervoso. nada além disso. acho que poucas vezes me senti feliz. a vida é feita dessas coisas. qual o sentido de entrar num local cheio, ver gente semi-conhecida, falar com semi-conhecidos. ali, todos me eram estranhos. fiz figuração de cena, quando devia nem ter aparecido on stage , ou back stage . "olha, menino", uma mão passa pelos meus cabelos, e eu sento. sozinho. não enxergo as estrelas, que diferença faz? alguém me oferece um cigarro e eu sopro, escondido e delicadamente, antes de tragar. não sei tragar e, também, não quero aprender. a vida já era muito bad para tragar. que diferença faz? e eu ali, figurante, na festa mais-que-lotada. dos momentos que a gente se sente sozinho mesmo com gente a volta. que diferença faz.

ode à realidade

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acordei e botei pra fora tudo aquilo que ingeri na esperança de me tornar mais corajoso. não é das coisas mais fáceis, ingerir, digerir, botar pra fora; ser corajoso. acordei e vi o teu desenho. e me senti tão bobo. francamente. bobíssimo. feliz, sobretudo. quis escrever uma elegia, porém me falta a poesia. poético era só te ver, ali, ao meu lado, se aninhando, às vezes. me aninhando, às vezes. fica faltando a elegia e sobra a ode à realidade (ou o contrário): acordei na segunda-feira, só, no sofá, cara coberta, embaixo do edredom. felicidade dissipada feito a brisa na copa ou aquela dúvida que sempre tenho quando olho nos teus olhos mas no final era só segunda e eu, sozinho no sofá

vãs palavras vazadas pelas frestas / sunset blvd

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no meio daquela cena robotizada, parece que tudo foi esquecido, tudo aquilo dito se perdeu no ar respirado, perdidas ficaram as palavras, dont hate me, joe como norma desmond, que aqui cai como luva, eu, dont stand there hating me, joe. perdidas no burburinho, no burburinho de outras palavras, outras vozes, que entravam pelas frestas das portas. palavras sem sentido, estrangeiras, também esquecidas. já esquecidas quando vazavam pelas frestas. esquecidas, porém menos importantes que, mas ainda assim, esquecidas: but say you dont hate me

depois da janta / no banco detrás do carro

eu: atrás, no banco espaçoso. faltou a cadeirinha. sem cinto, irresponsável. como toda a minha vida e tudo que faço. sem segurança. tentando entrar ali, naquele mundinho dos bancos da frente. tentando parecer o que eu não podia e não posso ser. tentando chamar a atenção enquanto assuntos alheios ao meu mundo rolam entre os dois. enquanto eu, alheio ao mundo em que tento entrar, fico para trás. literalmente, você: ali, sem olhar para trás, no banco do carona, falando de coisas alheias ao meu mundo, falando de mim (depois), alheio ao seu mundo, rindo, rindo. mas antes: uma preocupação, onde você vai ficar, mesmo, ah, sim, sim, a gente te deixa lá. e um beijo de despedida. ele: dono da verdade, dono do carro, de mesmo nome que eu, ou não, claro que não, isso é só para fazer parecer pior do que foi, mas depois rindo, rindo, bem sucedido e ouvindo jennifer hudson .

pode ser na rua santa luzia

CAN IT BE THE WAY IT WAS   canta brandon flowers nos meus ouvidos. a rua santa luzia passa por mim, acelerada. corro. não corro. aquela multidão de pessoas saindo de seus trabalhos, saindo de seus escritórios, suas baias, suas mesas, largando os afazeres e correndo; correndo pela cidade, pelo centro, atrás de algum ônibus, ou uma van, fazendo sinal para o trem do metrô. indo embora. em boa hora. e eu, ali, perdido, aleatório. aleatório no mundo. na mente só ecoa can it be the way it was na minha cabeça.

dia 30: escrevi o bilhete e deixei-o no bolso

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HOJE escrevi o papel. anotei meu nome e meu celular. coloquei no bolso da camisa, junto do coração. cheguei ao restaurante e ele não estava lá. me servi. sentei a mesma mesa que sento. na mesma cadeira. de frente para a porta. quando acabei de comer, vi as amigas dele chegarem. sem ele. e, então, ele chegou. aquela barba sem bigode. camisa quadriculada. ou isso foi no outro dia. não olhou pra mim. deixou um caderno vermelho sobre a mesa e foi se servir. passou raspando pela minha mesa. fiquei nervoso. suei. suei. suei muito. fiquei um tempo ali, sentado. fingi usar o celular. as mãos suadas tornaram isso uma tarefa ingrata. um tanto depois, levantei, paguei e fui pra rua. andei. andei. atravessei as duas faixas da rua e me meti pela rua lateral. tocando guitarra imaginária. cantando. cantando alto. nervoso. suando. cantando mais alto. fotografei um rosto no muro (tá no Instagram). voltei, ainda tocando a guitarra. e cantando. fiquei na calçada oposta ao meu prédio.  ao l...