dia 30: escrevi o bilhete e deixei-o no bolso

HOJE

escrevi o papel. anotei meu nome e meu celular. coloquei no bolso da camisa, junto do coração. cheguei ao restaurante e ele não estava lá. me servi. sentei a mesma mesa que sento. na mesma cadeira. de frente para a porta. quando acabei de comer, vi as amigas dele chegarem. sem ele. e, então, ele chegou. aquela barba sem bigode. camisa quadriculada. ou isso foi no outro dia. não olhou pra mim. deixou um caderno vermelho sobre a mesa e foi se servir. passou raspando pela minha mesa. fiquei nervoso. suei. suei. suei muito. fiquei um tempo ali, sentado. fingi usar o celular. as mãos suadas tornaram isso uma tarefa ingrata. um tanto depois, levantei, paguei e fui pra rua. andei. andei. atravessei as duas faixas da rua e me meti pela rua lateral. tocando guitarra imaginária. cantando. cantando alto. nervoso. suando. cantando mais alto. fotografei um rosto no muro (tá no Instagram). voltei, ainda tocando a guitarra. e cantando. fiquei na calçada oposta ao meu prédio.  ao lado dos tapumes da construção do que vai ser o maior prédio do rio de janeiro. posição privilegiada para vê-lo sair. e, então, depois de muito cantar e tocar guitarra, ele saiu. saiu com as amigas. eu fiquei ali, perto da esquina, eles vindo na minha direção. e eu não fiz nada. nada fiz. nem olharam na minha direção e eu também dei meia volta. depois que passaram, atravessei a rua e entrei no prédio. que covarde. parecia cena de filme, mas o script é o meu, e eu sou péssimo roteirista. não imagino diálogos. não mudo as cenas. só as deixo mudas.

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