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choro; me; desespero

você se levanta e anuncia que vai embora; eu me desespero porque ali não tive intenção nenhuma de falar algo ruim, de ser mau, simplesmente repeti palavras sem elaboração alguma. não importa a intenção, ali. o que houve foi que apesar da intenção, feri o outro , machuquei. me desespero. você se levanta e anuncia que vai embora. uma imagem de Ganesha olha por nós. eu me desespero e vou atrás. você fala que não quer mais me ver, ou me ouvir, anuncia que vai embora mas não vai. me espera. descemos as escadas, eu insisto em que mal fiz, não queria. esse olhar de ódio eu me lembro do natal e do ano novo. ah, no ano novo, na areia da praia, esse olhar em lembro bem. seguimos pela carioca, você profere as piores palavras e eu grito de volta. as pessoas talvez assustadas com o nível da discussão, seus berros, meus berros. me desespero, choro. cego pelas lágrimas corro de volta tentando ver que caminho você fez. dou a volta no largo, circundo o prédio da caixa econômica. choro. sent...

vem chegando o verão

desci as escadas sem saber o que estava fazendo. escorado no poste enquanto aguardava um ônibus, o sol das dez horas da manhã me castigava, e eu não tinha pleno controle do que estava fazendo. ali entreguei de bandeja todos os pontos e deixei claro: eu não consigo fazer isso, essa influência é nefasta para mim. de dentro do ônibus a mistura de suor e lágrimas escorria pelo meu rosto, meu corpo. um homem gordo e espaçoso se sentou ao meu lado, e isso, o calor, as lágrimas, me levaram a pensar que o mundo estava insuportável e eu precisava descer. quanta pressão de uma vez só. toquei a sineta e desci. pedi um uber. o sol já das onze horas torna tudo mais ingrato ainda. ali talvez eu não estivesse plenamente consciente do que fazia naquele momento. o ar condicionado dentro do uber não ajudou a diminuir o ritmo, tampouco, segui naquele ritmo frenético. "eu vou avisar a polícia", de que? de que do outro lado da linha estava outra pessoa completamente arrasada e destro...

duda beat - sinto muito

e eu vivia a flor da pele e nem percebia que das vezes que eu ria era vontade de chorar de novo aqui para tentar exaurir tudo que passamos. hoje não me senti ansioso. ontem também não. ontem eu tava triste. jurei ter te visto na festa, me escondi. não era. rodei a festa a toa. beijei outros lábios, voltei pra casa sozinho. ontem foi a estreia da nova temporada de RPDR. eu não assisti. não sei se voltarei a assistir algum dia. não vejo mais tv. só ouço o disco da duda beat. tá no repeat. duda beat no repeat. não indico música alguma, indico todas. vamos aproveitar o tempo que nos resta pra gente se agarrar mas e essa necessidade de exaurir. ontem vi um caminhão "mudanças Valmir" e no fim das contas tudo que você me fala que está mudando, eu não vejo mudanças. é só mais do mesmo, é o tirar a máscara. quem não sustenta o nosso amor? de onde eu tenho orgulho? quem se colocou em posições vulneráveis, quem buscou o contato apesar de magoado, quem sempre esteve ali? ...

mar revolto, posêidon agitado

o seu orgulho em falar que terminou comigo, mas não quer reconhecer a desonestidade toda que cometeu comigo, desonestidade & infidelidade, para além de todas as agressões & abusos & humilhações que fui submetido. a relação dominação-submissão que ultrapassou a fronteira do leito, e permeou toda a nossa coexistência pacífica enquanto eu pude manter essa posição subalterna. no fim a relação ocorreu por minha causa, eu me empenhei, e terminou também pelo mesmo motivo, ou não terminou, permanece aqui latente esse desejo de reconciliação e também de restabelecer a relação dominação-submissão para então, sim, aí, sim, terminar e ter o troféu de quem terminou com quem. a disputa de quem magoa mais quem, de quem proporciona o maior ressentimento, nessa disputa eu entrei atrasado, até então hors concours, até então, com uma entrada triunfal, chegando de rasteira, caindo de sua órbita em desgraça direto em você na velocidade da luz, quando eu so queria sentar sobre a sua car...

floating in outer space

dizem que quando os gatos te olham, com aquele olhar profundo de gato, e piscam, lentamente piscam, querem comunicar o amor profundo que sentem pela pessoa objeto de seus tão intensos olhares. no sofá, tentei emular o olhar que recebo de minhas duas gatas. um olhar profundo e profundamente cheio de amor, devoto até as pálpebras fecharem. eu sorrio. envergonhado. seguro lágrimas que querem sair, mas o sorriso não pude deixar escapar. naquele momento me teletransporto para marte, talvez nos teletransporto para marte, aquela terra fria e empoeirada, vazia de gente e emoções. um marte em gêmeos, arguto, mas onde não haveria mais briga. fecho os olhos, viro o rosto para a tv, de forma a esconder o sorriso que se formou. o tempo que se cria nessa viagem pelo espaço sideral talvez seja o tempo que devemos permanecer distantes, um paralelo entre espaço e tempo sacramentando o espaço-tempo em que o próximo evento ocorrerá, em marte (em gêmeos na casa 2) ou vênus (em aquário na casa...

(no escuro) todos os gatos sao bonitos

passo pela rua e venho andando apressado. olho para o portal da lojinha de eletrônicos e lá está de novo o gatinho de pelo amarelado. me aproximo dele como que para fazer carinho, e o gatinho emite um miado inaudível talvez pelo trânsito  intenso talvez por estar doente. olho bem o gato e reparo nos olhos avermelhados como que inflamados, um novo miado tão surdo quanto o anterior. o gato me toca de uma forma que não sei explicar, aquela cara felina, cheia de graça e maravilha como so um felino sabe ser mesmo quando doente e moribundo. aproximo a mão do gato amarelo, os pelos cujo aspecto péssimo nao atraem carícias nem carinhos mas que so a proximidade de meus dedos é suficiente para despertar daquele rostinho angelical a mais genuína felicidade. choro. choro na rua pelo gato amarelo, choro por mim. choro. deixei pra trás o gato amarelo, largado a própria sorte, assim como estamos nós mesmos à deriva , esbarrando-nos uns com os outros na busca individual do que é o nosso ...

serviço expresso de entrega

a imensidão cinza circunda a ponte rio-niteroi; a minha vista não alcança mais o mar, eu não vejo as ondas trêmulas em direção à costa. uma tristeza me acompanha nessa travessia. o que me aguarda la? eu nao sei. vejo um navio petroleiro. não consigo perceber se está ancorado ou em movimento. o trânsito é intenso, também, e eu fico de certa forma agradecido por ter esses minutos para me dedicar a imensidão cinza do dia de hoje. chego a um bar e peço ao garçom uma caipirinha, apesar do meu estômago vazio. a tristeza me tira o apetite; um barulho e a dor no abdômen talvez desmintam essa minha frase, mas eu permaneço fiel ate o final (ao sei la o que pode ser) (tudo). (bebo 3 caipirinhas) (o mundo gira) (choro) às 20h eu decido me levantar e deixar na portaria duas sacolas. niteroi já me viu fazer isso antes, não será a primeira nem a ultima vez. ou será a última? a sacola rasga, sob pesada chuva. me abaixo diversas vezes para deixar os pares de meias completos e s...

o marido da D. Aparecida

foi em 1999 quando o marido da aparecida começou a virar pó. ela era loura e sua filha tinha os dentes acavalados, e seu marido definhava literalmente. ela virava para vovó e falava "ah, hoje eu varri um pouquinho mais o pó".  imagino o dia em que aparecida, sozinha em casa com o marido que virava pó, muniu-se de um aspirador de pó portátil, daqueles automotivos, entrou no quarto sem demonstrar intenção, e aspirou o marido. talvez um aspirador portátil não fosse suficiente, e ela teve que ir e voltar várias vezes, esvaziando o compartimento do aspirador na pia da cozinha. desde então, eu sempre tive medo de virar pó. na cama, no banheiro, na roupa, procuro traços, será que essa sujeirinha aqui fui eu quem deixei?, e fico noiado se estou, como o marido da aparecida, me reduzindo a pó por onde ando.

pixelado amor

faz frio: no rio de janeiro, 20ºC significa muito frio. agora deve estar 17ºC e eu me deito cedo. deito e me cubro, após fechar as cortinas, apagar as luzes. me cubro com lençol, faz frio. fecho os olhos, eu poderia chorar. vi um pornô qualquer, dois três; tropical latinoamérica, ouço aquele álbum que tu colocaste noutro dia que transamos no teu quarto. uma transa romântica? sim, uma guinada definitiva naquele dia do que poderíamos ter sido somente.  transamos romanticamente com teus pais no quarto ao lado, a noite la fora silenciosa naquele pedaço entre icaraí e santa rosa. fazia frio como num outono temperado. agora faz frio como num outono temperado. me cubro e me esparramo na cama de casal, sozinho.  eu queria ligar, queria ouvir e falar. queria, tambem, chorar do nada, mas nao consigo; deito as 18h na esperança de que o tempo passe e eu permaneça aqui sem fome, sem vontade, sem nada. essa vontade de chorar aleatória que aflige 3% da populaçao carioca me agarr...

try not to fear but forget

hoje pós almoço me abate uma ansiedade que não sei de onde vem: se das respostas mal dadas, a conversa que não evolui, ou do preço salgado que a refeição me custou. imediatamente começo a passar mal. o almoço quase me sai pela boca. volta até o céu da boca, eu quase vomito.  sete dias atrás minha mochila acaba vomitada por um nenê no ônibus enquanto eu distraído ouço música. sábado de manhã eu chego em casa e as 8:14 eu peço desesperado que me liguem. eu não devia nunca fazer isso, desesperado ainda por cima. a cortina fechada, a cama e o travesseiro me embriagam. eu queria que alguém entrasse no quarto de repente e me comesse naquela hora mesmo, no estado que eu estava. às 8:15 adormeço. às 11:26 eu acordo, totalmente embrigado pela pouca luz que a cortina causa, o lençol, o travesseiro. transpiro no pescoço. a cabeça dói. levanto e vou ao banheiro. esse ritual de se ajoelhar para o vaso é quase inexistente, mas eu me dedico mesmo assim. bebo água. enfio o dedo na g...