vem chegando o verão

desci as escadas sem saber o que estava fazendo. escorado no poste enquanto aguardava um ônibus, o sol das dez horas da manhã me castigava, e eu não tinha pleno controle do que estava fazendo. ali entreguei de bandeja todos os pontos e deixei claro: eu não consigo fazer isso, essa influência é nefasta para mim.

de dentro do ônibus a mistura de suor e lágrimas escorria pelo meu rosto, meu corpo. um homem gordo e espaçoso se sentou ao meu lado, e isso, o calor, as lágrimas, me levaram a pensar que o mundo estava insuportável e eu precisava descer. quanta pressão de uma vez só.

toquei a sineta e desci. pedi um uber. o sol já das onze horas torna tudo mais ingrato ainda. ali talvez eu não estivesse plenamente consciente do que fazia naquele momento. o ar condicionado dentro do uber não ajudou a diminuir o ritmo, tampouco, segui naquele ritmo frenético.

"eu vou avisar a polícia", de que? de que do outro lado da linha estava outra pessoa completamente arrasada e destroçada colocando em suas mãos os meios de acabar com isso tudo, talvez, processado, fichado e julgado pelo crime de não conseguir sair do ciclo do abuso.

o motorista me olhava pelo retrovisor e eu nem tentava disfarçar a situação, completamente acabado, chorando audivelmente, olhos vermelhos, nariz escorrendo. a avenida brasil livre, o carro deslizava sobre a pista como se fosse um barco na correnteza.

"eu vou avisar a polícia", ecoa na minha cabeça. desço do carro, o sol de meio dia é pior ainda que o sol das onze, das dez, ando sem rumo pelo bairro na expectativa de que isso tenha sido a última pá de cal.

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