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lit up

num momento, a gente se vê naquele espaço claro, iluminado. as paredes brancas não trazem a sensação de limpeza; elas dão medo, em vez de trazer segurança. pessoas passam aleatoriamente para lá e para cá. ninguém diz nada. alguém vaga sem sentido e direção pelo corredor. parece que vai desmaiar. eu durmo. acordo e vejo o mesmo corredor. passa um carinha do grindr que foi a maior enganação do ano e me pergunta "ficou aí foi". claro que fiquei, ué.

all i want is inner peace

where are you now where are you going,        a infância fica pra trás. dá-se adeus ao passado, quero já chorar. não é só por isso, pela pobreza, pela insegurança, pela incerteza. é pelo que fica atrás, que cada vez mais coisa fica atrás, aquele ser que já não somos, que já não sou e que fica cada vez mais distante.        tudo é diferente, já agora é bem diferente do que foi doze horas atrás, o mundo girou 180º; só 180º, porque, se girasse 360º, teria voltado ao mesmo ponto. já tenho medo, já não sei como ficará, a sorte ataca e dilacera-nos por um instante, mas ao mesmo tempo como se dissesse-nos "vira-te, vira-se".

we keep going on: any day now

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que bom que você voltou i dream of you. i dream of us; i dream - we are. i wake up - we are not, we are just miles away, time separates us more than just space does. i dream, again, you telling me things, everything, i'm happy. i am, indeed. i know not how to keep myself happy while listening to these things, but i do.  i feel happy when listening to your stories. i wish, for a second, i could be part of them, but then i remember that i desired this to happen - and me not to be part of this, at all. my poor English can't save me here, nor my drunkenness (or yours). i can't erase that smile off of my mind, the time you called me 'love' (and i could feel that wasn't a joke) and the miswritten words that eloquently tried to show us what things actually are.  but things are - like the dream-thing - not, we are not. we are gone away, we haven't been each others for a whole minute, second. pardon, i say, for this - i didn't intend it, all this kin...

vãs palavras vazadas pelas frestas / sunset blvd [2]

joe, no fim das contas, não passou desses robôs. inteligências artificiais, sentimentalidades forjadas, falsas. please, hate me, joe. e joe me odiou, bem como a mocinha que podia ter qualquer nome [que também me odiou, em seu estilo mais quieto e calado], em qualquer filme e/ou época. agora, tudo faz sentido: a primeira cena, eu - lá do alto - vejo a mocinha me encarando, misto de fascínio e curiosidade, mas depois faz mais sentido como visão, previsão: o futuro. eu, norma desmond, que me cai como luva, louco-pirado, autor-algoz, apagando-me do mundo de forma altiva e brilhante, descendo as escadas como que aguardando o close-up para finalizar a cena.

no te vayas si te vas

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"e nem meu namorado é!"; ainda esperei alguns minutos para levantar. estava bêbado por demais, logicamente que nunca falaria isso, assim, em alto e bom som. (ou não falaria de novo). saí pela calçada e olhei a volta, sozinho. como sempre, claro. perdido.  sozinho. vaguei um instante por aquelas calçadas, antes de decidir atravessar a rua e ter a péssima ideia de comer um x-burguer. pensei em como falei muitas besteiras naquela noite e como eu decidia que poderia ser a última vez (de falar tantas besteiras). em como poderia ser, na verdade, definitivamente a última vez (para tudo, para te ver). que reação foi aquela, de ordenar e sair, como se eu fosse uma ovelha a ser pastoreada. sentei e pedi o sanduíche. comi devagar. ainda paquerei alguém. bêbado demais para paquerar, descabelado, os óculos quebrados. bateu um arrependimento e eu liguei, saí andando pela rua (logo após comer). não te achei, liguei, nada. o telefone tocou, e eu te vi no ponto. fizemos que...

the first nöel

e chega o momento do primeiro natal sozinho. o silêncio da casa. não foi como eu imaginava. é como um dia qualquer, um dia outro qualquer. se pudesse, aboliria o natal, claro. mas ainda tenho aqui, viva, a lembrança da camisa do flamengo que peguei embalada no pinheiro (de verdade), arrumado para o natal, na sala da casa, então nova.  ou da fita de toy story, no que creio ser o primeiro natal depois de mamãe morrer (e que ainda tenho, guardada).  e de quando o pinheiro, já transplantado para o jardim, morreu por conta dos besouros que deram em seu tronco. e de ir pra casa das tias em laranjeiras para ver o papai noel que uma delas contratava para alegrar o natal da vila em que moravam (ou ainda mora uma delas). do último natal com vó olga, cansada, deitadinha. e eu tentando ler a ordem da fênix, porque eu achava desesperadamente que ela precisava saber o que acontecia naquelas mais de 700 páginas. e dos almoços com vó léa, quando ela vinha pra ilha, e agor...

quando Copacabana foi Nova Iorque

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faz um calor abafado, como sempre. eu me espremo numas escadas rolantes e já vejo o céu azul. alcanço a superfície, feliz de estar livre, quase claustrofóbico que sou, apesar do calor ainda sufocante que faz nessas bandas do atlântico sul. enquanto esperava, um palhaço fazia malabarismos no sinal da Tonelero com a Figueiredo Magalhães. confesso que quase dei minhas moedinhas, mas preferi gastá-las com um pacotinho de halls sabor cereja (a única coisa que me sobrou de um alguém passado - e que também passou por outras pessoas). aquele sorveteria me fez sentir como se estivesse em Nova Iorque, aquelas lâmpadas penduradas, aquelas poltronas e mesas divertidos tem ar de Nova Iorque, mesmo que eu nunca tenha ido a Nova Iorque. ou que eu nunca vá, e que eu perca tudo isso, esse mundo gigante e que eu perca, também, você. ou já perdi. mas só que, ali na mureta, eu evitei te olhar e já não ganhei nenhum daqueles olhares que pareciam curiosos, ou não sei o que, ou que me de...

no metrô tropical

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o metrô no trópico é diferente noutro dia, eu te vi no metrô. carregava um embrulho, andava sorridente. cara de bobo, meio orgulhoso com o embrulho, totalmente feliz. eu, ali, naquele vagão mal iluminado, datado dos anos 1980, sentei-me quando deu, perto o suficiente para lançar meus olhares furtivos. penso se quem te espera, espera feliz.  um apartamento qualquer de frente para a praia, sentindo aquele fog que tomou conta do rio de janeiro, misto de poluição e maresia. o cheiro salgado no ar que acalma a espera. se prepara a janta enquanto espera. se poderia ser eu a esperar. eu, ali, olhando, vendo a felicidade alheia. é 2020, na verdade. os vagões são modernos, bem iluminados. eu, sozinho, vejo-te feliz no vagão do metrô, numa fotografia, um metrô moderno, iluminado, em paris. metrôs modernos e bem iluminados já estarão velhos, defasados e mal iluminados pelos trópicos cariocas.

dia nascente

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eu, de novo, ali, feito bobo. com medo. não chego em mais ninguém, não sei mais flertar. preciso da reinvenção. eu, perdido no espaço-tempo, de novo, sem saber o que fazer. a certeza da inexistência do nós. a ponto de fazer uma besteira sem tamanho. outro dia me controlei para segurar uma bandeja qualquer e não esgueirar minha mão pelos braços da poltrona. múltiplos braços, de plástico, tecido, epitélio. os tecidos que se esbarram mas não produzem atrito: ver a cena que foi a boca semiaberta, o céu clareando. eu to inventando tudo isso.

esfregar azulejos: solução para ansiedade e solidão

i'm feeling lonely and my hair is a mess. a total mess. minha vida é uma merda, também. até pensei em arrumar a árvore de natal. bateu saudades do pinheiro de verdade que ficava num vaso, primeiro, e depois no quintal. lembro da camisa do flamengo que ganhei de natal e usava para lá e para cá. as bolas penduradas na árvore, de seda. as luzes. não lembro se tinha uma estrela brega no alto. bateu também uma vontade de lavar os vidros da cozinha. parei na metade porque os braços cansaram e não tinha escada para alcançar os vidros mais altos. esfregar azulejos é bom para ansiedade. e para deixar a casa limpa.