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Diário do Tom (special)(dear fucking diary)

Querido Tom, eu lhe escrevo de novo. Não estou bem. Fazem 30 dias mais ou menos? Meu inferno astral começou.

do afogamento

eu estou ali naquela igreja, a da candelária, ou seria a da sé? o padre reza uma missa num português arrastado, quase parece latim, ou mesmo que seja latim. eu olho os afrescos, aqueles anjos todos, aquela coisa triste, talvez meio fúnebre, eu me deparo com a pia batismal e meu reflexo nela; o que eu vejo é repugnante, eu olho e procuro ao redor e não me imagino de noivo, vestido de noivo e de noiva, o padre agora fala em português claro "o noivo, por favor, o noivo O NOIVO" ele já berra, "OS FILHOS, OS FILHOS, O PAI, O ESPÍRITO SANTO" amém, eu corro, corro para fora da igreja, corro por entre os carros na rua, corro pela praça, esbarro em pessoas, mas quem se importa?, eu não choro, não soluço; eu corro até não sentir minhas pernas, eu pulo, eu me jogo no mar, e me afogo em detritos.

talheres

Eu não consigo dormir. Ainda há pouco uma cigarra cantava, mas eu sentia um frio danado. Um frio por dentro; um frio nos ossos. Eu não vou dormir esta noite. Eu poderia ter dito que não me importava ou que não gostava, mas eu não disse nada disso. Eu dizia apenas querer entender, e daí que agora eu sei e não sei, e meus palpites estavam certos? Eu escolhi que sim, provavelmente. De todas as possibilidades dadas e eu agora lembro daquela opção que me foi oferecida no ônibus e que eu considerei possível, mas preferi não escolher: foi tudo uma baboseira, em todos os sentidos, uma grande brinks. E eu não durmo agora com medo de acordar com esse garfo e essa faca em meu coração, essa sede de sentimento que eu não sei ao certo como catalogar.

baboon.

Me desculpa, mas é que muitas coisas não fazem sentido. Lembra daquele bilhetinho, aquele maldito que eu lhe dei naquele também maldito dia? Então, eu retirei de um daqueles biscoitinhos da sorte dessas pastelarias chinesas - [pausa] - Mas você não precisava responder, não havia nada no código civil que lhe obrigasse, ou seja lá que código seja, você não será penalizado, é isso, é isso que quero dizer, exatamente. Agora eu não entendo, tem ruído? Tem falha na ligação? Tá me ouvindo? Merda! - [disca de novo] - Oi, oi, eu não entendo! Você não me ouve, puta merda.  Troquei o aparelho, agora tou usando aquele preto com vermelho. Não, não aquele todo vermelho, aquele é da casa da minha tia, em Laranjeiras... ela vai bem, bem sim, digo indo, né... certa idade - [muitas falas] - É muito triste, mas é o ciclo da vida, ou da morte, quem sabe não escrevo sobre isso... Pois é, detesto cemitérios, sabe [pausa mais alongada] Sim, chorei bastante, faziam tempos, acho que unas seis ano...

de mãos abanando.

Estou me sentindo esquisito, sabe; não que eu não tenha sentido assim antes, mas que talvez hoje seja pior, ou melhor, ou eu não tenha realmente um parâmetro. Eu podia chorar de novo, mas deus como eu repito isso com frequência nos últimos tempos. Eu estava ali vendo Nárnia e quase chorei e quase peguei meu livro para ler novamente. Às vezes, ou quase sempre, uma boa leitura me bastaria. Ou sentar ao piano (ok, ao teclado - na verdade, piano digital). Aquela sensação de algo engasgado na garganta, como se a palavra não quisesse, ou pior, conseguisse sair. Ou caso saia, que seja acompanhada de choro, mas daqueles de abrir o berreiro, de tão doloridos e doídos. A boca do estômago dói, dói demais; talvez tudo isso, no fundo seja fome. Fome de abarcar o mundo inteiro com uma das mãos, e saber tudo o que tem lá.

sabe lá o que será de mim.

Eu podia lhe jurar que naquele momento eu lhe deixaria abrir meu zíper. Teria sido mais fácil se estivéssemos os dois, eu e você, num quarto escuro, sozinhos. Eu lhe deixaria abrir meu zíper, e quem sabe, meu coração. Eu agora deveria tomar banho; eu transpiro cigarro. Não que eu fume, mas acho que esse cheiro entranhou-se de tal maneira que o mais longo dos banhos não significaria nada. Eu preciso lavar o espírito, preciso me afogar no banho. Que ótimo que aqui em casa temos apenas chuveiro: banheiras seriam fatais, em diversas ocasiões. Eu cantava aquela velha canção outro dia "se essa rua se essa rua fosse minha, eu mandava, eu mandava ladrilhar". Eu cantava na esperança de saber realmente o que levou a essa situação, o que se passa na sua cabeça. Acho que cantarei eternamente. Outro dia achei duas moedas de um centavo cada; anteontem achei uma moeda de dois centavos de euro. Alguma coincidência? Prefiro não arriscar a análise de sorte dessa vez. Eu poderia...

enough

Daí que eu me acho chato. Na realidade, eu tenho sido muito chato, dá até tristeza de ver, porque são as mesmas falas, conversas, palavras, risadas, cansei de mim. Daí que eu queria que as pessoas me falassem isso, me fizessem calar a boca, me falassem "BASTA!", mas nada acontece, de tão chato que sou.

verdades entreouvidas através de fones num ônibus lotado num dia de chuva.

"Estou com saudades", ela diz com firmeza, quase frieza; a situação parece estar por um fio. "Estou com saudades", ela repete. A outra pessoa do outro lado da linha parece ficar calada durante algum tempo, a linha sobrecarrega de emoções. Um murmúrio, e então ela fala mais alto "não foi Deus, foi você! Nao foi Deus, foi você, eu terminei porque você me traiu", agora já não nos resta nada mais que dormir com fones de ouvido ao sacolejo da viagem.

do silêncio, dos sorrisos e dos bilhetes (des)premiados.

Outro dia eu pensei seriamente em atravessar a rua com o sinal aberto, sabe, e não teria sido a primeira vez. Pensei que eu teria medo, medo de pensar isso, mas até a esse ponto eu já cheguei. Outro dia eu recomendei Virginia Woolf para alguém triste, e logo depois desrecomendar (acho que eu preferiria derrecomendar ) porque ela apenas se suicidou num rio com uma pedra amarrada a si mesma. Eu não sei porque eu estou falando isso, mas a verdade é que eu poderia ter morrido qualquer dia desses, por motivos banais. Mas não queremos falar de mortes, sim, claro, porque isso é mórbido; mais interessante é falar que eu poderia me apaixonar, porque na verdade isso é o mesmo que morrer, morrer de amores, e por algo que não se conhece, apenas. Os seus sorrisos, naturalmente, já os conheço. Sorrisos de algoz, tão lindos, tão ferozes. Daí que eu sou uma pessoa cagada brilhante, para não dizer o contrário, e também muito confiante e cheia de moral e de amor-próprio, e eu sempre escrevi, ...

provérbios.

A mente vazia é a oficina do diabo, já diziam. A minha está cheia, bem cheia, e eu não sou cristão, mas o diabo nela produz. Eu lhes digo que não gosto disso de códigos, sou péssimo com isso, e com falas ambíguas e outros meios de se fazer entender nas entrelinhas: prefiro objetividade, mas não que eu seja. Cansei, por fim. Eu cansei de tudo, e de todos, porque ontem eu estava feliz, e após a meia-noite eu estava péssimo. Não se pode ter tudo que se quer, já diziam. Eu, como sempre, tenho tudo, e tenho nada, na vida, como última esperança. Eu queria mesmo era saber nada, e viver feliz. Viver sobrevivendo por aí, sofrendo a frieza e a crueldade natural da vida, da natureza, e nem ao menos ter a certeza da morte. Será que os animais tem consciência da própria morte, eu me pego pensando. Talvez sim, talvez não; eu tenho a leve impressão de que provavelmente, os cães até uivam quando a morte se aproxima na vizinhança, por que não saberiam quando sua própria chegaria? Ou mesmo os gatos...