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Mostrando postagens de novembro, 2011

verdades entreouvidas através de fones num ônibus lotado num dia de chuva.

"Estou com saudades", ela diz com firmeza, quase frieza; a situação parece estar por um fio. "Estou com saudades", ela repete. A outra pessoa do outro lado da linha parece ficar calada durante algum tempo, a linha sobrecarrega de emoções. Um murmúrio, e então ela fala mais alto "não foi Deus, foi você! Nao foi Deus, foi você, eu terminei porque você me traiu", agora já não nos resta nada mais que dormir com fones de ouvido ao sacolejo da viagem.

do silêncio, dos sorrisos e dos bilhetes (des)premiados.

Outro dia eu pensei seriamente em atravessar a rua com o sinal aberto, sabe, e não teria sido a primeira vez. Pensei que eu teria medo, medo de pensar isso, mas até a esse ponto eu já cheguei. Outro dia eu recomendei Virginia Woolf para alguém triste, e logo depois desrecomendar (acho que eu preferiria derrecomendar ) porque ela apenas se suicidou num rio com uma pedra amarrada a si mesma. Eu não sei porque eu estou falando isso, mas a verdade é que eu poderia ter morrido qualquer dia desses, por motivos banais. Mas não queremos falar de mortes, sim, claro, porque isso é mórbido; mais interessante é falar que eu poderia me apaixonar, porque na verdade isso é o mesmo que morrer, morrer de amores, e por algo que não se conhece, apenas. Os seus sorrisos, naturalmente, já os conheço. Sorrisos de algoz, tão lindos, tão ferozes. Daí que eu sou uma pessoa cagada brilhante, para não dizer o contrário, e também muito confiante e cheia de moral e de amor-próprio, e eu sempre escrevi, ...

provérbios.

A mente vazia é a oficina do diabo, já diziam. A minha está cheia, bem cheia, e eu não sou cristão, mas o diabo nela produz. Eu lhes digo que não gosto disso de códigos, sou péssimo com isso, e com falas ambíguas e outros meios de se fazer entender nas entrelinhas: prefiro objetividade, mas não que eu seja. Cansei, por fim. Eu cansei de tudo, e de todos, porque ontem eu estava feliz, e após a meia-noite eu estava péssimo. Não se pode ter tudo que se quer, já diziam. Eu, como sempre, tenho tudo, e tenho nada, na vida, como última esperança. Eu queria mesmo era saber nada, e viver feliz. Viver sobrevivendo por aí, sofrendo a frieza e a crueldade natural da vida, da natureza, e nem ao menos ter a certeza da morte. Será que os animais tem consciência da própria morte, eu me pego pensando. Talvez sim, talvez não; eu tenho a leve impressão de que provavelmente, os cães até uivam quando a morte se aproxima na vizinhança, por que não saberiam quando sua própria chegaria? Ou mesmo os gatos...

agora que está feito.

'qual foi?', você me acusa, deliberadamente, sem crime cometido; no momento seguinte, ri, e ri, da própria desgraça talvez, ou da minha desgraça, provavelmente. Eu não sei se devo acreditar, se devo creditar alguma factualidade ao que você dispõe, ao que você me dispõe. Tudo parece tão irreal, e ao mesmo tempo, tão desejável. Eu queria que naquele momento você falasse realmente tudo que quisesse falar, afinal não é todo dia que se recebe uma carta branca, uma liberdade de ação dessas. E você nem ao menos me desaponta, repare. De qualquer jeito, eu queria gritar aos quatro, oito, dezesseis, sejam quantos forem os ventos, queria gritar e ainda assim você não me ouviria. Eu queria sussurar em seus ouvidos, talvez seria mais eficiente. Talvez seja simples, talvez você não se importe, talvez.

there's no denying.

Eu lhe pedi que me desapontasse, desde o início, eu lhe pedi. Eu lhe supliquei, é verdade, não há como negar. Pedi que partisse meu coração, mas é um novo dia, um novo amanhecer e eu não sinto bem, não sinto ok. Agora já passam de duas horas que comecei a escrever isso, e poft eu não consigo escrever; é um novo dia, um novo amanhecer, e eu estou me sentindo bem. Que coisa idiota.

Querido Tom 51

Rio de Janeiro, 08 de novembro do ano da graça de 2011. Mais um ano se aproxima do fim, e eu aqui na mesma de quando lhe escrevi pela primeira vez. Talvez eu não escutasse as mesmas músicas, certo? As lembranças me escapam, mas não era algo em torno de uma extração de dentes? Tenho medo de revisitar o passado, tenho medo de pensar no presente porque logo é futuro e o futuro é incerto apenas quando não se trata de se tornar presente e logo em passado. O que fazer, senão sentar e esperar o dia em a coragem se cria e faz-se o que deve ser feito, sem despedidas melodramáticas, sem choro nem vela, feito criança que pergunta onde está aquele caozinho que morreu e lhe é dito que está no céu ao lado de papai do céu. Eu queria poder acreditar em céu, em papai do céu, mas é misticismo demais para minha pobre mente cética, e não me resta muito em pensar que eu escolheria vagar nesse mundo feito fantasma como é possível em seu mundo, em vez de continuar e reencontrar todos os meus que já ...

algodão egípcio.

Um nó se faz e desfaz na minha garganta, a seu próprio gosto, tal como sentir borboletas no estômago quando se apaixona pela primeira vez independe da vontade. Eu rio do perigo, eu rio da desgraça, eu finjo. Finjo ser o que realmente sou, para que pensem ser o que não sou, e acima de tudo, finjo estar bem quando não está ou até mesmo quando está, que seja. Ali, agora, sozinho; lá, antes, sozinho; mais adiante, depois, sozinho. Eu podia fugir para o Paraguai, para o Tocantins, porque Teresina já é muito fairplay, alguém me encontraria lá. Eu quero o desconhecido, eu devia me querer então. Mas eu não quero nada além de desfazer esse nó de lã que me prende a respiração e me faz querer chorar feito um bebê num berço coberto em tecidos de linho. Isso me faz querer me afogar numa banheira de lágrimas e me enxugar numa toalha de algodão egípcio.