Querido Tom 51

Rio de Janeiro, 08 de novembro do ano da graça de 2011.

Mais um ano se aproxima do fim, e eu aqui na mesma de quando lhe escrevi pela primeira vez. Talvez eu não escutasse as mesmas músicas, certo? As lembranças me escapam, mas não era algo em torno de uma extração de dentes? Tenho medo de revisitar o passado, tenho medo de pensar no presente porque logo é futuro e o futuro é incerto apenas quando não se trata de se tornar presente e logo em passado.

O que fazer, senão sentar e esperar o dia em a coragem se cria e faz-se o que deve ser feito, sem despedidas melodramáticas, sem choro nem vela, feito criança que pergunta onde está aquele caozinho que morreu e lhe é dito que está no céu ao lado de papai do céu. Eu queria poder acreditar em céu, em papai do céu, mas é misticismo demais para minha pobre mente cética, e não me resta muito em pensar que eu escolheria vagar nesse mundo feito fantasma como é possível em seu mundo, em vez de continuar e reencontrar todos os meus que já se foram e que se irão em breve e em muito. Será que eles me veriam como eu sou ou como quando me viram pela última vez? Prefiro vagar sozinho pela terra, mero espectro do que um dia tenha sido, apenas não fadado ao conhecimento dos outros, tampouco a corresponder expectativas minhas que nunca serão completadas por desacordo mútuo.


E eu que ouvi a verdade ser proferida na minha última aula de Civilização e Cultura Árabe - "o que você acha que vem depois da morte" me pergunta o professor, e sem esperar a minha resposta "Silêncio" -. Silêncio. Silêncio, silêncio. Será que nem ao menos um único som de farfalhar de folhas (de que mais seria?), murmúrios, lamentos, ou aquele chacoalhar de pedras transbordando dos bolsos e caindo nos chão.

E eu que ontem pensava que nunca mais lhe escreveria. Saudades, daquelas que doem os olhos e calam os sentimentos.

Do seu,

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