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Mostrando postagens de julho, 2011

A cama-maca.

Costumamos adotar algumas datas simbólicas como o dia em tudo começou, como 1789 para o início da era contemporânea, e por aí vai. Eu só sei que naquela sexta-feira, meio nublada, em que começaram os Jogos Olímpicos de Atenas, em que eu via a oliveira brotar no meio do estádio, exatamente naquele dia, minha vó adoeceu. O desenrolar da situação foi bastante rápido - digamos que a situação degringolou. Num determinado dia, no Ano-Novo, eu pensei que seria ali. Devem ter queimado o colchão depois daquilo. Foi aí que chegou a maca. E a enfermeira. Passei a dormir com a minha irmã. Passava 'hoje é dia de maria". Eu tive vontade de assistir "hoje é dia de maria" novamente. Não que eu realmente tivesse assistido a isso da primeira vez, nem da segunda. Eram tempos tensos. Mas aquilo trazia alguma esperança. Algum dia, minha vó comeu aletria. Eu não gosto de aletria. Depois, num dia ensolarado, a maca amanheceu vazia. Eu me pergunto se a Lúcia já sabia. Devia...
Eu gosto do budismo porque Sidarta Gautama, o primeiro Buda, era um cara normal, que através da meditação atingiu a iluminação. ‘Qualquer um’, portanto, pode se tornar um Buda. Tem toda uma história sobre o dia fatídico, a árvore sob a qual ele estava e blá blá blá... Mas eu acho que é interessante pensar que... Ele se pôs na mesma posição um sem-número de vezes e então, em um dia não mais especial do que os outros, ele teve o ‘clique’. Há algumas cenas em nossas vidas que ficam impressas em nós... Uma certa briga de nossos pais, uma surra, um determinado dia de brincadeira no quintal... Mesmo que diferentes situações do mesmo tipo tenham ocorrido, apenas uma ficou gravada. Por que aquela, aquela vez? Às vezes, de noite na madrugada, eu penso que atingirei a revelação. Eu penso que encontrarei alguma coisa que me tocará de tal forma, que fará com que tudo faça sentido. Eu procuro, eu assisto, eu leio, mas o ‘clique’ ainda não veio. Será que virá? Deus está morto; a política fed...
Foda-se! Você não dá a mínima. Eu estou perdido. Não consigo estudar. Isso é uma grande babaquice... Eu não quero decorar esses nomes. Eu não posso! É dar as costas às minhas ideologias, É entregar meus amigos, É revelar o esconderijo sagrado das idéias mais produndas. Todas essas folhas, essas pilhas de folhas, Essa faca no meu pescoço, a reprovação eminente... Eu cuspo em tudo isso! E é com o meu próprio cuspe que vão me enrabar. hahaha... Filhas das Putas.

Os nervos.

A minha cama range. Lá fora as folhas farfalham, e isso talvez seja um pleonasmo, mas há um farfalhar de folhas. O vento sopra, gelado, e as folhas rodopiam e farfalham. Um latido. No rádio, Vanessa da Mata entoa algum cântico africano, ou brasileiro mesmo. Emapariê, ciranda, que beleza, que beleza. A minha cama range novamente. Ela range comigo, todas as noites. Não sei como não acordo com os rangidos. Ela nunca range sob dois, e talvez nunca rangerá.  Eu levanto e piso no taco frio. Sempre gostei dos tacos, eles ficam menos gelado que o mármore e os azuleijos da cozinha  e do banheiro, de que eu também gosto. Sempre terei tacos em minha casa, e mármores e azuleijos. A porta do armário range. A porta do quarto range. Acho que eu ranjo, por mais feio que isso possa parecer. Penso em quando isso cessará, esses rangidos intermináveis. O farfalhar, essa madrugada, pelo menos, não cessará. Esse cão latindo também não. Faço a cama ranger novamente. Eu sozinho. ...

A sorte na borra do café.

Aí que eu entornei café. Café nas minhas roupas, o que me deixa muito enraivecido.. Enraivecido simplesmente porque estou com a camisa branca borrada de café, e exalo café agora mesmo. Eu podia pular da janela agora mesmo. Isso pelo menos me pouparia de enfrentar essa maluquice toda, essas discussões inúteis, completamente inúteis, que só servem para tornar o mundo mais ininteligível e menos passível de mudanças, o que seria exatamente o contrário do que propõem. Ela agora se debruça e sente o cheiro de café. Pode deixá-la tão irritada quanto me deixa, não fosse o fato de ela estar tão ocupada no que os outros falam, e não em mim e no que escrevo ou no meu cheiro de café. Agora já acho que tenho sabor de café. Alguém poderia me experimentar agora, de fato, mais do em quaisquer um dos momentos em que eu disse "try me", em uma ou outra situação. E não foram poucas. E não foram no sentido figurado, de testar, mas realmente de experimentar, me experimentar, de ter um...

Verões.

Naquele verão eu me apaixonei. Me apaixonei pela primeira vez, eu acho. Lembro daquela vontade guardada. Amor de verão, e que ironia, platônico. Ou não. Naquele verão ela também se apaixonou. Se apaixonou pela primeira vez, eu acho. E então eles se amaram, na praia do Namorados, que ironia de novo. Ou talvez tenha sido proposital. Atrás de um barco, escondidos, fugindo e fingindo não ouvir os gritos que os procuravam. A lua ao fundo, bastante tropicalista esse romance. Talvez Gil tenha escrito, ou Caymmi previu deitado em sua rede. Fazia sol, eram dias quentes. Cidade pequena, que tem auto-falantes nos postes e que te obriga a ouvir aquela seleção praiera por toda a vida. Naquele verão, corríamos até a praia de água verde, verde, e areias brancas. Eu me apaixonei, e sofri.