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Mostrando postagens de junho, 2014

a outra maria das dores

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já faz um bom tempo que acompanho a maria das dores, sentada na sua cadeira de plástico, as muletas ao lado, os tênis de alturas diferentes para facilitar a vida dela, que foi atropelada e teve o pé amputado. vejo maria das dores da janela do meu ônibus. virou meio que um ritual; todos os dias, sento perto da janela e, quando se aproxima o semáforo, olho para a direita, a fim de ver maria das dores sentadinha, às vezes conversando, às vezes parada olhando o asfalto, tão algoz quanto o carro e seu motorista de seus infortúnios. não que a vida dela tenha mudado muito, desde então. ela ainda vende doces e balas aos pedestres que perambulam por aquele canto esquisito da cidade, perto da rodoviária. memória guerreira não se apaga nunca! maria das dores fica ali sentada, escondida, à sombra, até que as trump towers apareçam. não sabe quando isso acontecerá, mas já ouviu boatos de que a vida mudará. mudará mais que quando teve o pé esquerdo amputado (e mesmo assim jura para o marido ...

a vida da maria das dores

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outro dia, eu vi a maria das dores sentada num meio-fio, uma lata de cerveja aos pés. maria das dores tinha cara de sofrida, porém, estava sentada à sombra, o que amenizava a dor. a dor de morar na rua. maria das dores era uma preta velha nesse dia. cada dia, eu acho que vejo uma maria das dores diferente. mas nesse dia, maria das dores era uma preta velha. quando voltei, maria das dores não estava mais sentada no meio-fio. ela tinha-se ido. VULTOS: prédio abandonado em Itaboraí. especulação imobiliária foi vagar noutras paragens. era dia de jogo do brasil, mas maria das dores não veria jogo algum. para maria das dores, não era copa. nunca seria. nem copa nem cozinha: maria das dores não tinha casa. queria poder escrever a história da vida da maria das dores, mas a história dela é assim, simples, curta e grossa: maria das dores, mulher, preta, velha, sem-teto, sem-casa, homeless . marginal. cansada. faminta. para maria das dores, não teve copa. nem terá. não cabe aqui meu juí...

querido tom 65

tom, dois dias pro deadline e nao mexi um pauzinho. a vida é difícil, preferia esfregar chãos. mentira, preferia ser casado com alguém rico e então ser dono-de-casa e esfregar chãos. a playlist alterna entre alguma música em árabe  e brooklyn baby, que a lana del rey colocou na web. antes era kylie minogue. ainda lembro de quando eu te disse que nao queria nunca gostar de kylie, tempos passados. agora eu só queria fazer um tcc. mas a vida nao deixa.

sobre a corrida do pó

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white rich kids drown "segura minha mão que eu nao gosto de andar sozinho", e assim caminhamos. o sol já estava alto, que horas eram? nao me atrevi a olhar meu iphone sem chip. preferi ficar apreensivo assim mesmo. alguns momentos antes a vida mudou como se um furacão tivesse passado. de repente, as frases mudaram, envolviam terceiros invisíveis. como lidar? "segura a minha mão que eu nao gosto de andar sozinho" era a resposta a todos os "eu te amo", "eles nao podem saber", "quero ficar com você", "mãe, eu amo ele" e "eu nao posso, nao consigo fazer o que você quer fazer comigo". a cada 10 segundos mudava; num tanto era muito amável, noutro agressivo. também passou pelo muito feliz e o muito triste. os olhos chorosos era sucedido por um sorriso que se abria ao encontrar meu olhar (talvez repreensivo, talvez penoso). as palavras sem nexo que se trocavam na boca por outras sem nexo também, porém acompanhando a ...