a outra maria das dores
já faz um bom tempo que acompanho a maria das dores, sentada na sua cadeira de plástico, as muletas ao lado, os tênis de alturas diferentes para facilitar a vida dela, que foi atropelada e teve o pé amputado. vejo maria das dores da janela do meu ônibus. virou meio que um ritual; todos os dias, sento perto da janela e, quando se aproxima o semáforo, olho para a direita, a fim de ver maria das dores sentadinha, às vezes conversando, às vezes parada olhando o asfalto, tão algoz quanto o carro e seu motorista de seus infortúnios. não que a vida dela tenha mudado muito, desde então. ela ainda vende doces e balas aos pedestres que perambulam por aquele canto esquisito da cidade, perto da rodoviária. memória guerreira não se apaga nunca! maria das dores fica ali sentada, escondida, à sombra, até que as trump towers apareçam. não sabe quando isso acontecerá, mas já ouviu boatos de que a vida mudará. mudará mais que quando teve o pé esquerdo amputado (e mesmo assim jura para o marido ...