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Mostrando postagens de dezembro, 2017

serviço expresso de entrega

a imensidão cinza circunda a ponte rio-niteroi; a minha vista não alcança mais o mar, eu não vejo as ondas trêmulas em direção à costa. uma tristeza me acompanha nessa travessia. o que me aguarda la? eu nao sei. vejo um navio petroleiro. não consigo perceber se está ancorado ou em movimento. o trânsito é intenso, também, e eu fico de certa forma agradecido por ter esses minutos para me dedicar a imensidão cinza do dia de hoje. chego a um bar e peço ao garçom uma caipirinha, apesar do meu estômago vazio. a tristeza me tira o apetite; um barulho e a dor no abdômen talvez desmintam essa minha frase, mas eu permaneço fiel ate o final (ao sei la o que pode ser) (tudo). (bebo 3 caipirinhas) (o mundo gira) (choro) às 20h eu decido me levantar e deixar na portaria duas sacolas. niteroi já me viu fazer isso antes, não será a primeira nem a ultima vez. ou será a última? a sacola rasga, sob pesada chuva. me abaixo diversas vezes para deixar os pares de meias completos e s...

o marido da D. Aparecida

foi em 1999 quando o marido da aparecida começou a virar pó. ela era loura e sua filha tinha os dentes acavalados, e seu marido definhava literalmente. ela virava para vovó e falava "ah, hoje eu varri um pouquinho mais o pó".  imagino o dia em que aparecida, sozinha em casa com o marido que virava pó, muniu-se de um aspirador de pó portátil, daqueles automotivos, entrou no quarto sem demonstrar intenção, e aspirou o marido. talvez um aspirador portátil não fosse suficiente, e ela teve que ir e voltar várias vezes, esvaziando o compartimento do aspirador na pia da cozinha. desde então, eu sempre tive medo de virar pó. na cama, no banheiro, na roupa, procuro traços, será que essa sujeirinha aqui fui eu quem deixei?, e fico noiado se estou, como o marido da aparecida, me reduzindo a pó por onde ando.