é preguiça ou ansiedade isso aqui que sinto entre os pulmões?
QUEM DORME SONHA
QUEM TRABALHA CONQUISTA
sinto uma câimbra, novamente, sexta-feira à noite. disfarço o desconforto, o novo desconforto. passei a noite com a perna esquerda recostada junto a perna de outra pessoa, de um desconhecido, e se eu estivesse noutro dia, em algum outro dia pior que o que estou hoje, pensaria que houve algo mais naquele leve roçar e encostar pernas.
ou como também houve algo mais naquele olhar absorto e vidrado. eu não me acostumo com olhares vidrados e perdidos, prefiro os que tem alguma emoção, menor que seja. o olhar vidrado que tudo reflete, inclusive a aparência que eu, naquele momento, desconfortável gostaria de disfarçar.
quarta-feira, dentro de um ônibus da linha 634, altura da vila do joão, uma jovem mulher sobe pela porta de trás e distribui caixinhas de bala Mentos, junto de um papel com uma mensagem "quem dorme sonha quem trabalha conquista". ela tem o semblante cansado. não fala nada. outros passageiros entram pela porta da frente e pagam suas passagens. o ônibus arranca do ponto de ônibus, na pista lateral da avenida brasil. a moça das balas, assim, sem idade e sem nome, retorna para a frente do ônibus. nada fala, permanece calada. recolhe as balas em direção aos fundos do coletivo. toca a sineta e ao descer, solta as únicas palavras "obrigado, motô".
ninguém comprou um pacotinho de bala. penso como essa mulher dormirá essa noite; culpada por dormir, culpada por sonhar. sonhar com que? conquistar o que? uma angústia se apossa de mim, tão forte quanto a que senti dois dias antes ao ler sobre dandara dos santos. o homem ao meu lado fede a cerveja seca, suor e cecê. ele parece impaciente com um cigarro que passeia por entre seus dedos. num momento, olho para a janela à esquerda, no exato momento em que ele tira uma trouxinha de pó.
ele tem uma trouxinha de pó, mas não comprou as balas da moça. ele não come balinhas quando está entediado.
QUEM DORME SONHA
QUEM TRABALHA CONQUISTA
o cansaço já parece ter sido mais forte que angústia que senti. ela se aquieta, por enquanto. ainda é quarta-feira, afinal. chego em casa e não consigo dormir. a cabeça martela, martela. cada vez durmo menos, apesar de permanecer atrasado. atrasado para acordar, atrasado para o banho, atrasado esperando ônibus, atrasado no trabalho, atrasado para dormir.
a angústia volta na quinta-feira. as luzes da cidade me acalmam, será? será que o cansaço será maior de novo? que tédio é esse que parece me rodear desde a hora que acordo?
na sexta-feira, novamente; ou era desconforto? acordo sábado, mal levanto da cama. me esforço para vencer as tarefas domésticas que se acumulam. sair de casa parece um desafio monumental, hercúleo. o rádio toca um electro-pop qualquer, ou um arab jazz.
danço com a gata, o feijão ferve no fogo. a louça na pia some e reaparece outra em seu lugar. venho para o quarto. de novo e de novo e de novo. olho a tela grande e nada acontece. olho a tela pequena. checo a conta bancária, zerada. o próximo pagamento cai dia 14 ou dia 17 de abril? checo a tela grande, a tela pequena, nada, nada novo sob o sol.
outro dia te pago um lanche, me vejo falando numa manhã ensolarada.
vamos tomar café da manhã, quero um café colonial, eu já perdi as contas de quantas vezes falei isso - quiçá diariamente.
por que ficamos nesse papinho, por que mantemos os mesmos papinhos, de 1, 2, 3 anos atrás, same chat, same old people, same feelings...
já não sei se quero só estar numa fenda, metade aqui e metade ali. se quero só isso de "no escuro todos os gatos são pardos" - de fato, quero mais. mas mais o que? se eu quero sair, andar pela cidade sem rumo, dançando, só um celular e dois fones, mãos dadas e talvez algum beijo na bochecha...
ah, essa angústia aqui. ou é só preguiça?
oi, frequentadora do 634 aqui huahua
ResponderExcluireu tenho esses mesmos pensamentos quando vou ao centro, principalmente pela avenida brasil. São tantos tipos de pessoas e tantos tipos de misérias e sentimentos misturados.