eu pensava que a metrópole tinha luzes néon
do ponto de ônibus ouvíamos um pagode da década de 1990, que tocava de algum boteco pé-sujo qualquer. engraçado como logo em Icaraí teria uma coisa dessas: aos pés das Icaraí Towers espraia-se uma pequena comunidade pobre, um valão corta a avenida, antes do viaduto-ponte.
eu, ali, saco uma bala halls sabor cereja do bolso e ofereço. adquiri esse péssimo hábito naquele passado que agora já parece enterrado a mais de sete palmos, bem mais. me pego pensando nisso e em como eles tem um quê desdenhoso que me atrai, e tento apagar essa imagem da cabeça. tarde demais, como sou bobo.
(e por onde anda o passado enterrado a mais de sete palmos? às vezes, a gente tenta desencavar alguma coisa, mas nada vem à tona. ultimamente dei pra pensar que tudo não passou de imaginação minha, sonho, ou pesadelo, visto que os rastros já foram apagados, ou não mais existem: apagou-se a história, os personagens, tudo, não restou nem a dedicatória na folha de rosto).
os ônibus passam a toda velocidade e nenhum me serve. penso na besteira de ter ficado até tão tarde zanzando pelos limites da metrópole e do juízo. aqui, de novo, reparo como me lembro de outra pessoa e tento apagar essa imagem da cabeça, mas tarde demais. de novo.
(essa outra aqui, não tão enterrada, que vai e volta, e que consegue ser pure evil).
depois de um tempo, eu me pergunto: por que subir os degraus de ônibus é algo tão crucial? da subida dos degraus, vejo o passado formado e me pego pensando que devia ter feito isso ou aquilo, ou então me perco olhando para trás da janela de um táxi, vendo-o tornar um pequeno pontinho no meio das luzes da cidade.

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