 |
| vista da rua do santo cristo |
Ando pela rua santo cristo; a rua do santo cristo. Arrasto minha cruz com pouca graça e pressa pelas calçadas. Os carros buzinam e soltam fumaças pretas, alheios ao meu calvário. O sol bate em meus olhos, sensíveis. Sempre foram. Água enche os olhos, mas foi só o sol. Ou um cisco. Tropeço. Passo as costas da mão no nariz pra conter a coriza. É só um resfriado. Só. Nada além disso. Os motoqueiros nem percebem quando passo carregando a cruz; eu não sinto dor, não choro. Nada. Atravesso a rua. O sol queimando a pele. Sol de inverno. Os raios ultravioletas atingiram níveis recordes na américa do sul, diziam os jornais, sobre o inverno desse ano. Devia ter passado protetor solar, mas o texto do pedro bial é tao ridículo de dar dó. É isso que chamam de entretenimento? Mas mesmo assim, devia ter passado protetor solar. Devia ter me protegido. Devia ter usado proteção naquele outro dia. Devia ter parado antes. Agora carrego essa cruz. Essa sina. Chego a igreja do santo cristo, porém nada faço. Ando na calçada oposta. Não chego perto. Não faço o sinal da cruz. Nunca fui religioso. Mas esses sonhos tem sido estranhos. Mas faz tempo que deixei de ser religioso. O mais próximo que cheguei foi quando vi aquele SBT Repórter com a história do menino que foi adotado pelo diabo. Sempre tive medo do diabo aparecer e falar comigo, mesmo eu sem acreditar na existência desse diabo. Gente sem pai e mãe tem desses medos. Eu tenho muitos outros. Carregar essa cruz enorme, por exemplo. Mas carrego, com medo, mas carrego. Com fones no ouvido, eu poderia estar ouvindo um lamento lamurioso, mas era Sia. O disco
1000 forms of fear toca.
Free the animal, eu cantarolo na mente.
Free the animal. Nada acontece. Não funciona. O que mais poderia se encaixar tão bem?
Atravesso a última rua. O sol queimando a pele. As costas da mão tentam conter a coriza imaginária que escorre. Os olhos, sensíveis, com água nos olhos. A cruz, imaginária.
Comentários
Postar um comentário