a outra maria das dores

já faz um bom tempo que acompanho a maria das dores, sentada na sua cadeira de plástico, as muletas ao lado, os tênis de alturas diferentes para facilitar a vida dela, que foi atropelada e teve o pé amputado. vejo maria das dores da janela do meu ônibus.

virou meio que um ritual; todos os dias, sento perto da janela e, quando se aproxima o semáforo, olho para a direita, a fim de ver maria das dores sentadinha, às vezes conversando, às vezes parada olhando o asfalto, tão algoz quanto o carro e seu motorista de seus infortúnios. não que a vida dela tenha mudado muito, desde então. ela ainda vende doces e balas aos pedestres que perambulam por aquele canto esquisito da cidade, perto da rodoviária.

memória guerreira não se apaga nunca!
maria das dores fica ali sentada, escondida, à sombra, até que as trump towers apareçam. não sabe quando isso acontecerá, mas já ouviu boatos de que a vida mudará. mudará mais que quando teve o pé esquerdo amputado (e mesmo assim jura para o marido que ainda sente coceiras no pé inexistente). não sabe se para melhor ou pior. só espera que possa continuar ali, naquele cantinho, vendendo suas balas e doces aos que passam.

dali, do seu cantinho, ela já viu de tudo. do raiar do sol até o anoitecer. maria das dores não fica ali mais que até as 19h, a vida dura, porém ela se permite um limite.

quando termina seu horário, ela, com ajuda dos outros colegas ambulantes, guarda os produtos em caixas de papelão e desmonta a barraca. todos os dias ela lembra quando teve todos seus produtos confiscados e amargou o prejuízo de não poder vender seus doces. todo dia, eu a vejo, calma, porém à beira de um nervous breakdown.

um pequeno aparelho de rádio a pilhas fica pendurado numa das barras que sustentam a lona da barraca. quando chegam as eleições, ela se põe a ouvir atentamente, mas não ouve nenhum candidato que lhe representa completamente. ali, ela continua à margem: da rua, dos direitos, da integridade, da segurança.

e então o ônibus vira a esquina e eu só verei maria das dores, novamente, no dia seguinte.

Comentários

  1. Você vê-la já faz muita diferença.
    Ela e todas as outras.

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  2. e então o ônibus vira a esquina e eu só serei maria das dores no dia seguinte.

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