fragmentos no ônibus

[laila vai casar, ela está ali, toda de branco mas preferia um vestido vermelho: gostava muito de morangos. e de rosas. rosas vermelhas. laila vai casar, ela está ali, submergindo na banheira]

(eu estou no ônibus. há vários espaços vazios. um infeliz senta ao meu lado. um infeliz que usa uma camisa de manga comprida de time de futebol que parece ser o pijama dele. sinto mau-cheiro. a camisa está molhada quando esbarra em mim. urgh)

[laila será feliz, dizem seus pais. ela tem o noivo mais rico e influente da região, o mais trabalhador também. só faltava ser bonito]

(agora já tem gente em pé no ônibus e uma barriga gorda quase se esfrega no meu rosto; quase, mas se esfrega no meu ombro. eu não sei se essa pessoa tomou banho antes de pegar o ônibus, tal qual o infeliz ao meu lado que quase absolutamente certo não se limpou ao levantar da cama)

[a vida de laila é uma desgraça. ela prefere jogar o carro da ponte a entrar na igreja de branco. antes tivessem permitido que ela casasse de vermelho. laila não seria nenhuma shahrazad para entreter um marido na cama num eterno jogo de caça e caçador]

(o infeliz lê algum jornal vagabundo qualquer. eu toco a sineta para descer. alguém ocupa meu lugar. o infeliz sou eu.)

[a banda contratada toca inutilmente. laila não vai chegar ao casamento]

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