contemplação.
"Marcante principalmente pra mim mesma... queria me esquecer às vezes." [alguém]
Tentei cobrir o rosto, mas era em vão;
chovia, uma chuvinha fina e irritante. Eu poderia falar, mas fiquei em
silêncio.
Você me falava das maravilhas do mundo, ou até
mesmo de como pegava o jornal jogado na grama pelo entregador, mas a verdade é
que eu só pensava no que eu deveria pensar. Uma batalha em minha mente. Eu
estava sozinho, mas cercado de gente.
A mesa já não é mais o cenário, talvez eu preferisse
ficar lá, porque tecnicamente não chove em lugares fechados, e eu não
precisaria enfrentar a chuva. Já era claro, e eu desejei a minha cama, ou
qualquer cama, em que eu pudesse deitar, e ficar aconchegado. Eu queria ficar
aconchegado por um dia inteiro, apenas admirando o teto, o teto branco e seus
adornos de gesso e seu lustre de cristal. Mas isso não acontecerá, jamais.
A calçada está suja, e mesmo toda a chuva que
chovesse todos os dias não seria capaz de limpar isso; mas não é nisso que eu
reparo. Eu reparo em seu casaco, e como eu queria que você o oferecesse a mim,
como eu queria ficar aconchegado o dia inteiro naquele casaco, apenas admirando
o céu azul-turquesa e suas nuvens brancas de gesso e seu lustre fazendo o
movimento leste-oeste até que se trocassem as cores e o lustre. Mas isso não
acontecerá, nunca.
A barata sai do bueiro e entra na fresta pela
parede, e você continua a falar, todos continuam a falar, sem ao menos
perceberem que já chegamos à esquina. A esquina da separação. Alguém pichara no
mundo "Se nunca mais nos falarmos, lembre-se de que eu serei eternamente
diferente por causa do que você é e o quê significou para mim"; eu penso
que você não significa nada. O outro muro diz "Sem você, a emoção de hoje
seria pele morta da emoção do passado"; esses muros estão todos errados,
eu penso. Uma fileira de ônibus tapa a minha visão, eu fico aliviado.
Alguém murmura tchau, alguém me abraça, eu não
consigo falar. Eu olho para você, um aceno de cabeça, eu viro as costas. A rua
parece longa. Eu apenas penso que queria ter-lhe beijado, beijo, de boa noite,
já de manhã, mas eu apenas me vejo andando sozinho na rua extensa, com chuva e
vento no rosto, sem olhar para trás.
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