O bidê de louça preta.

Seguindo o exemplo da coleguinha, penso agora em como formei meu caráter. Ultimamente, tenho pensado que não tenho caráter. Mas caráter, o que é caráter? Penso em caráter como algo esquisito, e só me lembro de quando me tornei gente, isso é bastante usual na minha fala, na minha pregação.

Até certo ponto da minha vida, havia um barco bastante grande no meu quintal. Aqueles eram tempos lindos, o Capitão era um cão muito agradável,  a gente corria pelo quintal e pelo jardim, e era tudo assim, poft, azul e feliz. A cozinha tinha a porta em outra lugar, eu caí e derramei iogurte na mosca, o jardim tinha a plantinha das sementes vermelhas venenosas, e eu tinha uma coleção de carrinhos.

E o banheiro tinha o vaso preso, com sua tampa preta, e um bidê preto. Um bidê de louça preta. E eu lembro de passar horas a fio sentado no bidê, pensando, ou pensando. Eu sinto falta daquele bidê agora; penso que bidês são úteis, mas se tornaram raros. 

Parte do meu pensamento, infantil talvez, se formou ali, sentado naquele bidê. Meu caráter se iniciou ali, naquele bidê preto que não existe mais. E eu me pego pensando até quando existirá o meu eu, quando ele se tornará raro, e deixará de existir no banheiro.

Ali, no banheiro de parede de azuleijos antigos, e de chão de mármore preto.

Comentários

  1. Eu sei que isso pode até ter um quê de "invasão de privacidade" ou pior, invasão de passado, me memória, do que pode ser mais teu do que qualquer outra coisa, mas, mesmo assim, eu não deixo de falar: eu amo a tua infância.

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  2. engraçado é que eu, apesar de tudo, sempre gostei mais de mim como criança do que qualquer outra coisa.

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