Fã-clube da esquina.
O portão se abriu para mim, logo depois daquele voz cessar no alto-falante. Eu desci a pequena ladeira; era uma casa grande, senhorial quase, e tinha muitos aposentos. Isso me faz lembrar que 'aposento' é uma palavra genial e aconchegante; quem dera meu quarto fosse um aposento, e tivesse uma poltrona de chenile, com braços, onde eu pudesse me jogar, e quem sabe, dormir numa noite de frio, debaixo de cobertas.
Mas o caso era que eu descia a ladeira que permitia o acesso à área externa daquela casa. Acho que todos já estavam lá, e todos me esperavam. Como sempre. Ou como nunca, já que ninguém nunca me espera, nem tem paciência para tanto. Eu só desci, sem vento na cara, sem cabelos ao vento, sem correr e abraçar alguém. Talvez eu ainda estivesse em meus 08 anos nessa época.
Lá embaixo, alguém importante chegou, carregando um molho de chaves. Acompanhamos, vimos a chave encaixar no buraco, girar, e a porta simplesmente abrir. Vimos também chegarem panos e vassouras, produtos de limpeza diversos, enfim, tudo que se precisava para arrumar um locar de forma decente. Nada foi falado ou discutido, a limpeza iniciou-se tão logo a porta foi aberta e todos adentraram aquela saleta pequena, escura e com teias de aranha.
Por um momento ou outro algum de nós falava alguma coisa, alguma brincadeirinha. Não sei precisar agora quantas pessoas estavam ali, talvez fôssemos 8, talvez fôssemos 10. Dez crianças.
Ali, naquele dia, aconteceu algo extraordinário, o que definiu minha vida para todo o sempre, talvez. Terminada a arrumação, veio a público que aquilo seria a sede de um fã-clube, uma coisa infantil. Algo que eu não sabia; pensava somente que se arrumava aquele local para brincarmos. E eis que o que seria trágico para toda a eternidade: até hoje, eu não saberia para que seria aquele fã-clube. Era um fã-clube do Nada.
Como toda a minha vida, sem porquê, sem porquê de existir, sem explicações maiores.
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