O jovem padawan perdido na selva.

[devaneios]

- Você, você é um burro.

Permaneci sentado, acho que ri. Certamente que 'padawan' parece uma palavra africana, e para mim não faz diferença de que filme ela saiu, só consigo pensar em "O rei leão". Padawan, padawan, e a minha mente vem ritmos tribais africanos, pessoas vestidas com roupas de pano grosso e colorido, tamboras e danças sensuais e bonitas, ao mesmo tempo.

- Você é um burro, - ele repetiu, agora mais alto - não sabe de nada, não sabe nada.  Eu podia esmurrar sua cara agora, você tem cara de idiota. 

- O céu está azul. Eu estou azul; preciso escrever sobre isso, preciso escrever sobre isso, rápido! - eu realmente não prestava atenção ao que me era dito. Padawan reviveu em minha memória aquela dança africana que eu vi. - Deus, eu devia tê-las dito que dançavam que nem princesas, que nem rainhas da dança!

Agora, eu me perguntava, ou perguntava a todos? 

- Isso, isso é carma, ou coisa qualquer. Eu só tentava estabelecer contato.

Fiquei sem resposta. Melhor assim, ou não. Eu nunca sei de nada, seja isso bom ou ruim. Na verdade, isso é péssimo; lembro-me de pensar em Sócrates como um presunçoso, ao dizer que não sabia de nada. E agora, eu me vejo assim, não como Sócrates, atrás de uma grande verdade, ou de ser amigo da sabedoria, mas me vejo sem saber nada, e feliz por estar assim. Feliz por estar como um belo céu azul-turquesa sem nuvem alguma, sem sobressaltos, sem novidades.

- Pior, meu deus, você é feio.
Eu me olho no espelho. Podia o céu azul se turvar de repente, e cataploft? Não, creio que não. Mas cadê o espelho? Não estava ali, eu acabei de me olhar nele! 

[desmaio]

Eu acordo, e olho o teto. Ele parece verde. Sinto náuseas, são 4 horas da manhã, e meu celular está apitando. Eu não devia ter atendido. Derramo o copo d'água e molho meus documentos que estão logo ali, junto da caneta cor-de-vinho. Xingo baixinho, como se rezasse. Encosto a cabeça no travesseiro.

[sonhos]

Eu corro agora, e estou na Praça da República. Eu fujo do pavão de penas brancas, passo e saio ali, quase que de frente para a Gafieira Elite. Acho engraçado a Festa do Bigode já ter começado, afinal não passam das 14 horas. E eu penso que não seria difícil me apaixonar hoje.

[banho]

Eu agora giro a torneira do chuveiro. A água está gelada. Xingo baixinho, como se rezasse.

- Vai demorar? - gritam do lado de fora da porta. Permaneço em silêncio.

O meu banho é sempre um ritual. O sabonete escorrega por entre minhas mãos e eu xingo baixinho. Nas caixas-de-som, uma música qualquer, podia ser Kylie Minogue. Na verdade, parece se "A Cause de Garçons". Eu penso que a vida é sempre assim, por causa dos meninos, por causa das meninas, essa meninada louca, esses menines que nos dilaceram o coração.

Eu paro. Peraí, peraê. Eu não estou dilacerando meu coração. Penso quando isso acontecerá.

[transporte público]

Cadê, cadê os meus fones de ouvido? Abro a mochila e quase tiro tudo de dentro, inclusive o guarda-chuva. As pessoas me olham esquisito. Eu sempre tenho a impressão de que as pessoas me olham esquisito. A vida é um eterno teste, todos testam os outros, mesmo quando não queremos fazer parte desse sistema. "Ele é precavido, esse garoto, anda com guarda-chuva mesmo em dia de sol", eles pensam, e pensam, sem nunca pensar certo ou errado, só pensam sobre os outros, e testam, mesmo que não admitam.
E agora já estou irritado.

- Quando ela pisou na calçada, eu já tinha pisado... - diz a velha desdentada, batendo um saco de latas ali na calçada da Central do Brasil, ou seria na rua Primeiro de Março? Não faz diferença, são todos iguais. 

[dentista]

- Acho que perdi o juízo, doutor, desde que o senhor arrancou meus dentes, acho que perdi o juízo.

Ele me encara, e não diz nada. Ninguém diz nada. Ninguém pode me ajudar, só eu posso me ajudar. Eu olho o relógio, e tudo gira. O coelho branco está logo ali, esperando que eu devolva seu relógio.

[meio-fio da rua]

Alguém apaga o cigarro, e adentra o boteco. Eu observo dali, de longe, sentado no meio-fio. Eu podia ter sido sincero aquela noite.

[dois meses depois]
Eu não acredito no que me acontece. Meu destino é cretino demais. Eu devia ler minha sorte nas folhas de chá.

- Biscate, você é biscate. E aquelas pessoas ali, ali ó, são tudo biscate. Biscate -, eu repito e selo meu destino. - tudo biscate.

[lendo as folhas de chá]

- Zoraide, diga, diga o que tem aí!

Ela faz uma cara assombrada, e de quem parece não entender.

- Muito ouro, muito ouro. Inshallah!

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