Sitting and waiting.

Eu estava ali, suado e suando, sentado pelo piano. Tinha um espelho na minha frente, e às vezes eu olhava nele, só para ter desculpas de não olhar o piano. Sentia-me à vontade e à contragosto, tão distante e tão perto da platéia.

Havia, então, aquele sorriso, aquele sorrido que mais parecia dourado como sol; um sorriso encantante, que cantava. E cantava baixinho, como se só para mim, só para ser ouvido por mim. Cantava canções do amor demais, do amor demasiado, com uma rouquidão.

E então, era tudo sol, Sol, muito iluminado, e eu sentia muito calor, novamente. Pensei que tinha sido excelente usar shorts de linho naquele dia, se pensei; mas pensei também se podia ser, ou se era realmente tudo imaginado, como sempre é, sempre tudo imaginado.

Estava à vontade, mas à contragosto.

E ele tocou Comptine d'un autre été: l'après-midi. Eu sorri. ._.



*             *             *


Então, eu entro no ônibus, um pouco molhado. Tinha corrido na chuva, e se era pela Avenida Brasil, que se dane. Agora queria somente estar em algum lugar que proporcionasse secura. 
Pois que o ônibus foi pela Linha Vermelha, aleluia. Fiquei pensando se alguém reclamaria, talvez o motorista só tivesse esquecido de trocar a placa, e realmente devesse ir pela Linha Vermelha.

E alguém fala alto, tão alto que eu escuto da parte traseira do ônibus; tão alto, que me chama a atenção, e me faz manter a cabeça virada para a frente do ônibus. Ou eu já tinha feito isso antes? 

Não consigo distinguir a conversa, estou atento a outros detalhes. Sorrisos, disfarçados, como sempre.

E eu me pergunto: será que você sempre faz isso, Caio?



*             *             *


E eu entro em ônibus novamente, pela sei-lá-que-vez no mesmo dia. Tinha andando um bom-bocado por nada; não tinha CD de Marcelo Jeneci a minha espera na Travessa do CCBB. E não tinha nada de interessante que me fizesse gastar dinheiro; talvez um outro CD de Fantasia, mas eu resisti.

Recomeçando, eu entro novamente em outro ônibus, pois seria impossível que eu entrasse no mesmo ônibus, duas vezes, em tempos diferentes. E eis ali alguma coisa que me chamou a atenção mais que da última vez, e que me incomodou mais que ficar trinta minutos no ponto de ônibus em pé depois de ter andado uns dois quilômetros naquele dia, sob chuva em alguns momentos.

Podiam ser as orelhas engraçadamente desenhadas que chamaram a atenção, mas seria mentira dizer isso. Tive vontade de perguntar: "Você costuma fazer isso?"; mas pensei, e pensei, durante algum tempo. E disfarçava o riso, afinal ninguém gosta de rir, assim, abertamente.

Pois que então me veio à mente a pergunta reveladora jamais feita, até então, e que permanece assim, quem sabe até a próxima vez:

"Você viu Cats? De graça?" 

Ou pior: "Você viu Cats? Comigo?"

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