Peitos fartos, filhos fortes.
Não sei precisar exatamente, mas após um tempo, quando chorava, em vez de gritar "Quero minha mãe", passei a fazer uso do "Quero minha vó", mesmo quando era minha vó quem me castigava. Engraçado; creio que minha irmã também fez isso.
Na verdade, ela chorava menos que eu naquela época; sempre corria e se escafedia pelo quarto dela, sempre sem apanhar ou coisa parecida. Eu podia aqui escrever sobre as palmadas, mas não; só sei que as palmadas que eu levei quando criança não me tornaram um marginal, e tenho certeza que algumas pessoas por aí deviam levar umas bem dadas. Ou um beliscão torcido, diria minha vó, com um sotaque ainda resquicioso de São Paulo.
Sempre convivi com pessoas mais velhas, há muitas delas em minha família. Minha vó Olga tinha quatro irmãs, e todos os meus primos dessa parte da família já eram adultos, talvez. Desde cedo, a velhice já era conhecida.
Mas não queria escrever sobre palmadas e beliscões torcidos dados a caminho da ACM, nem de como estou acostumado a velhice, ideia que não me assusta. por enquanto. Ontem foi Dia de Finados.
Uma das coisas da velhice é que se está mais perto de morrer; morrer não necessariamente está perto da velhice. Durante aquele ano da concepção, houve também perda. Aumentou-se, perdeu-se. Minha vó não era a irmã mais velha, mas foi a primeira a partir. Era também a que tinha um quinhão de vida mais agitada.
O dia em que ela adoeceu (como se se pudesse precisar isso) foi o dia da abertura das Olimpíadas de Atenas, o retorno a origem. Ela chegou reclamando de cansaço, já no meio daquele espetáculo interessante, do qual não me recordo muito bem, exceto pela oliveira que brotou, e foi crescendo, crescendo, até ficar uma árvore frondosa, bonita.
A partir do day one, minha vó foi parando, parando de fazer as coisas, não saía, comia menos. Dormia com ela, como sempre fiz.
Naquele verão, passou "Hoje é Dia de Maria", excelente produção, com um ar melancólico, triste. Talvez.
Lembro do grito, e das lágrimas.
Vem andar e voa, vem andar e voa, vem andar e voa, vem andar e voa - e não se perca ao entrar no meu infinito particular.
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