Patéticos, Epiléticos.

Amor é novela, sexo é cinema.

Podia ter entrado em qualquer vagão. Por que aquele, em particular? Não, não era mera coincidência. Havia algo de perseguição, mesmo que disfarçada.

Levantou cedo aquele dia. Seria isso o prenúncio de algo interessante? Não, simplesmente uma obrigação, uma mera obrigação. Era o dia do conhecimento da designação, como já foi dito anteriormente em algum lugar do passado.

Enfim, não havia nada que marcasse o dia em especial, a não ser, até então, o fato de ter-se dormido pouco. Mas era o início somente. Era uma terça-feira cinzenta? Não, creio que não; era quarta-feira,sim, o meio da semana, e começou meio estranho. As manhãs começam estranhas. São sempre cinzentas. 

O dia evolui, eventualmente, para algo quente, e luminoso. Diferentemente do estado de espírito de nosso querido cidadão. O caminho era longo.

Chegado o destino, a espera era longa; filas, falatórios prolongados, andanças, novas filas, nomes chamados, filas mais extensas, alguém homônimo. No meio de tudo isso, uma  mochila roxa. Ou seria o casaco? Listras, tal qual o Gato de Cheshire. 

Seria só um casaco, então? Havia também uma profusão de vozes, e camisas laranjas, ou somente uma, e algumas vermelhas, e muitas pretas. Vozes altas, travestidas em calças jeans, algumas irritantes, outras graves demais. Assuntos banais. Permaneceu em silêncio. Não tinha amigos.

Nova fila, desespero; cadê as listras? Estão por aqui, em algum lugar, sim, sim, algum lugar... procure direito, ali, ali está. Calma novamente. 

A fila anda, já sobe escadas, alguns degraus, alguns muitos degraus. Já vai chegando sua a vez. Atendimento extremamente burocratizado. Ó vida tirana.

Queria ter era feito isso tudo antes, ou não, não ter feito nada. Os fracotes não seriam de valia mesmo; até mesmo alguns em saúde vigorosa e ótima desenvoltura foram perdidos, talvez algum reconhecimento esquecido. 

Mais espera, mais filas, mais falatórios, mais nomes, vozes exaltadas, alguém conhecido, filas alheias. Sentado no chão, à espera da designação. Todos estão concentrados; alguma piada, risadas.

Uma figura alta, esverdeada, surge; dá explicações, explicações vagas, nada importante; outra figura chama nomes, em voz alta, talvez não tão alta; certamente, fala mais baixo que o outro, o que fala coisas banais, que as repete, tal qual uma vitrola arranhada. Um papelzinho branco, carimbado, é a salvação. E a perdição.
Outra fila, agora rumo à liberdade. Despedidas, um ânimo crescente. Todos andam para o mesmo lado. Vem o desejo de andar de trem. 

Metrô é quase a mesma coisa que trem. Corre-se para comprar o bilhete e não perder aquela composição. Vagões. Lotados.

Baldeação, vagões mais lotados. Incrivelmente, ou não, lá estão as listras. Seria coincidência?

Metrô do Rio.
Já sabia de tudo, era tudo uma armação; das armações da sorte. Já tinha percebido desde o caminho, certamente que sim; alguma voz no fundo, algum cântico, alguma prece de conforto; um sermão, sim, um sermão, um pastor que não larga seu rebanho, tal qual nos tempos de São Pedro.

Já não era suficiente? Começa a passar mal; passar mal? Não, não tem isso, há um procurada aqui, outra ali, e depois, borboletas no estômago. Um bando, milhares de borboletas, dado a magnitude dos tremores. Foram só 2 segundos. Terá sido recíproco? Pensa-se. Sim.

O vagão esvazia, mas não se trocam os lugares. O sermão é terminado. Ligações, inciadas, terminadas, por mais de um, sorrisos trocados, risadas confidenciadas.

Um pedido, sem palavras, não chega a ser entendido, ou atendido; há uma obrigação muito grande.

Sente vergonha.

Há uma despedida, talvez eterna. Um dar de ombros, um levantar de sobrancelhas.

Um dar de ombros.

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