O Cortiço – Aluízio de Azevedo

AZEVEDO, Aluísio. O Cortiço. 4ª Ed. São Paulo: Moderna, 1890. p.1 –183.

E viu a Rita Baiana, que fora trocar o vestido por uma saia, surgir de ombros e braços nus, para dançar. A lua destoldara-se nesse momento, envolvendo-a na sua coma de prata, a cujo refulgir os meneios da mestiça melhor se acentuavam, cheios de uma graça irresistível, simples, primitiva, feita toda de pecado, toda de paraíso, com muito de serpente e muito de mulher.
Ela saltou em meio da roda, com os braços na cintura, rebolando as ilhargas e bamboleando a cabeça, ora para a esquerda, ora para a direita, como numa sofreguidão de gozo carnal num requebrado luxurioso que a punha ofegante; já correndo de barriga empinada; já recuando de braços estendidos, a tremer toda, como se fosse afundando num prazer grosso que nem azeite, em que se não toma pé e nunca se encontra fundo. Depois, como se voltasse à vida, soltava um gemido prolongado, estalando os dedos no ar e vergando as pernas, descendo, subindo, sem nunca parar com os quadris, e em seguida sapateava, miúdo e cerrado, freneticamente, erguendo e abaixando os braços, que dobrava, ora um, ora outro, sobre a nuca, enquanto a carne lhe fervia toda, fibra por fibra, titilando. (AZEVEDO, 1890, p. 68)
Naquela mulata estava o grande mistério, a síntese das impressões que ele recebeu chegando aqui: ela era a luz ardente do meio-dia; ela era o calor vermelho das sestas da fazenda; era o aroma quente dos trevos e das baunilhas, que o atordoara nas matas brasileiras; era a palmeira virginal e esquiva que se não torce a nenhuma outra planta; era o veneno e era o açúcar gostoso; era o sapoti mais doce que o mel e era a castanha do caju, que abre feridas com o seu azeite de fogo; ela era a cobra-verde e traiçoeira, a lagarta viscosa, a muriçoca doida, que esvoaçava havia muito tempo em torno do corpo dele, assanhando-lhe os desejos, acordando-lhe as fibras, embambecidas pela saudade de terra, picando-lhe as artérias, para lhe cuspir dentro do sangue uma centelha daquele amor setentrional, uma nota daquela música feita de gemidos de prazer, uma larva daquela nuvem de cantáridas que zumbiam em tomo da Rita Baiana e espalhavam-se pelo ar numa fosforescência afrodisíaca. (AZEVEDO, 1890, p. 68)


Foda... Né?

No caso, quem vê e é mencionado secundariamente é Jerônimo, português honesto, trabalhador, sisudo... Marido de Piedade (adoro esses nomes que tem algum significado no enredo)...

Jerônimo era alto, espadaúdo, construção de touro, pescoço de Hércules, punho de quebrar um coco com um murro: era a força tranqüila, o punho de chumbo. O outro, franzino, um palmo mais baixo que o português, pernas e braços secos, agilidade de maracajá: era a força nervosa, era o arrebatamento que tudo desbarata no sobressalto do primeiro instante. Um, sólido e resistente; o outro, ligeiro e destemido, mas ambos corajosos. (AZEVEDO, 1890, p. 101)

‘O outro’ se chama Firmo, mulato amante de Rita Baiana, sendo a disputa dos encantos da mesma a razão do que se sucede a tal vibrante descrição...
Contudo, essa é apenas uma das tramas que se desenlaça no Cortiço de João Romão. Sendo a dele mesmo, ao lado de Bertoleza - uma escrava que o vendeiro toma por companheira de cama e labuta e que depois se torna um fardo para sua ascensão social - outra muito interessante.
Tudo começa quando João Romão, após 12 anos de trabalho, fica com a taverna de seu patrão e um conto e meio de réis. A partir daí ele passa a comprar os terrenos próximos e construir sobradinhos, que mais tarde vem a alugar e acabam por constituir o Cortiço.
Escrevo ‘cortiço’ com letra maiúscula porque este é o personagem principal do livro. Ele é o palco de tudo que se passa e há todos influencia. E vai além, evoluindo com o passar do tempo e tendo quase uma vida própria:

Eram cinco horas da manhã e o cortiço acordava, abrindo, não os olhos, mas a sua infinidade de portas e janelas alinhadas.
Um acordar alegre e farto de quem dormiu de uma assentada, sete horas de chumbo. […].
O rumor crescia, condensando-se; o zunzum de todos os dias acentuava-se; já se não destacavam vozes dispersas, mas um só ruído compacto que enchia todo o cortiço. Começavam a fazer compras na venda; ensarilhavam-se discussões e rezingas; ouviam-se gargalhadas e pragas; já se não falava, gritava-se. Sentia-se naquela fermentação sangüínea, naquela gula viçosa de plantas rasteiras que mergulham os pés vigorosos na lama preta e nutriente da vida, o prazer animal de existir, a triunfante satisfação de respirar sobre a terra. (AZEVEDO, 1890, p. 35, 36)


Assim como a história de Jerônimo, o caso de Pombinha muito ilustra a influência do cortiço sobre seus moradores e o determinismo presente na obra:

Sendo uma dos poucos que sabem ler e escrever no cortiço, demonstrando assim uma cultura acima da média, Pombinha é uma bela menina de 18 anos, cuja puberdade ainda não alcançou.
Afora o fato de ser letrada, a jovem ainda auxilia os analfabetos do Cortiço, escrevendo as cartas por eles ditadas. O único entreposto entre ela e seu pretendente é o fato de ainda não ter se tornado mulher, sendo esta a grande preocupação de sua mãe.
Entra então na história uma coquete bem abastada chamada Léonie, amigada do Cortiço, que, em um convite familiar, acaba por levar a menina a sua casa. Lá, elas têm uma relação sexual (primeiro caso de lesbianismo na literatura brasileira) e, alguns dias depois, Pombinha (em uma narração cravejada de metáforas) menstrua pela primeira vez.
A jovem mulher, compungida, afasta-se da prostituta e logo se casa. Mas dentro de si ela já fermentava o que mais tarde a levaria a trair e separar-se de seu marido. Na verdade, assim que se fez mulher, o mundo destoldara-se interna e externamente. Ela assimilara num arroubo tudo ao qual fora exposta durante tanto tempo, todas as relações de dependência e sexo que moviam aquelas mulheres e homens:

Uma aluvião de cenas, que ela jamais tentara explicar e que até ai jaziam esquecidas nos meandros do seu passado, apresentavam-se agora nítidas e transparentes. Compreendeu como era que certos velhos respeitáveis, cujas fotografias Léonie lhe mostrara no dia que passaram juntas, deixavam-se vilmente cavalgar pela loureira, cativos e submissos, pagando a escravidão com a honra, os bens, e até com a própria vida, se a prostituta, depois de os ter esgotado, fechava-lhes o corpo. E continuou a sorrir, desvanecida na sua superioridade sobre esse outro sexo, vaidoso e fanfarrão, que se julgava senhor e que, no entanto, fora posto no mundo simplesmente para servir ao feminino; escravo ridículo que, para gozar um pouco, precisava tirar da sua mesma ilusão a substância do seu gozo; ao passo que a mulher, a senhora, a dona dele, ia tranqüilamente desfrutando o seu império, endeusada e querida, prodigalizando martírios que os miseráveis aceitavam contritos, a beijar os pés que os deprimiam e as implacáveis mãos que os estrangulavam. (AZEVEDO, 1890, p. 117)


Desquitada, Pombinha vai atrás de Léoni e torna-se também uma prostituta de luxo. Sua mãe, muito decepcionada a princípio, passa depois a viver unicamente do dinheiro enviado por sua filha.
Por fim, Pombinha começa a demonstrar interesse pelo novo esquindim do Cortiço, ‘Senhorinha’, filha de Jerônimo e Piedade. A menina (muito semelhante à própria Pombinha em sua juventude), já jogada a mercê pelo que se sucede a seus pais, parece não ter artifícios para se escapar a tais influências libertinas...

Gostei bastante do livro; do desenvolvimento das histórias; do enlace das tramas; do Cortiço como filho de João Romão, tendo características e desenvolvimento semelhante ao primeiro... Adorei as descrições!

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