Frustração.

Almodóvar: "No noir pode [...] haver mentiras e fatalidade, qualidades que normalmente uma mulher encarna: a femme fatale. Ela é consciente de seu poder de sedução e é fria, razão pela qual não se altera facilmente. É alguém que perdeu os escrúpulos e não se interessa em recuperá-los. Para ela, o sexo não é fonte de prazer e sim de dor para os demais. [...] a femme fatale é um enfant terrible," (quando no corpo de um homem).

Pessoa X: "oh my/ you're an old man trapped in this young body" "you're too conceited"

Pessoa Y: "mas vc é estranho/ não me peça pra explicar/ é que vc parece se achar superior sabe, como se sempre soubesse tudo e sempre estivesse analizando tudo/.../ e vc meio que surta"

Pessoa W: "vc quer ser diferente/ vc quer aparecer/ então boa sorte"

Eu: "fraco?/ tá, isso eu já sabia/ covarde também/ mas..."

Os pensamentos giram pela minha cabeça. Não há, talvez nunca houve, um momento de concentração. Mentira; havia sim. Até lá meus 17 anos, quando eu era uma pessoa velha, essencialmente velha. Agora, não mais certeza, assim como o fluxo de pensamentos não para. Mentira; há uma certeza: a minha frustração.

Desde cedo sou frustrado. Por não ser como qualquer outro, não ter as mesmas coisas. Com o tempo, aprendi a talvez gostar (porque não tenho certeza absoluta de nada); se tivesse sido diferente, nada seria como era (ou é). Os relacionamentos, que me são caros, agora, seriam outros. Eu não voltaria no tempo. Não quero poderes divinos, ou quaisquer outras representações mitológicas, religiosas ou fantasiosas de quem detém esses poderes.

Então, eis que ocorre um mudança súbita; a certeza que rondava a minha vida, minha mente, evapora. Acho que saí do limbo. Há essa impressão. Pensando agora, entrei na minha Idade de Ouro. Não era mais um velho, tampouco novo; estava, novamente, submetido a um estado que os outros não entederiam, quer por inexistência de vontade, quer por deficiência mental. Prefiro acreditar na segunda hipótese. Mentira, não tudo. Não foi uma mudança súbita. Foi uma "abertura lenta, gradual e segura". Não se sai da ditadura de uma hora para outra. E a democracia não é só flores.

Estava lá, aos 15 anos. Ensino médio. Um ano intenso, em várias perspectivas. Uma surpresa, ao final do ano. Sempre professores, sempre. Alguém havia percebido o início da saida daquela ditadura mental a qual eu estava submetido. Grato.

Segundo ano. Algumas mudanças, logicamente, igualmente importantes para a preparação para a abertura definitiva. Laços fortalecidos, para serem quebrados, mais tarde; que nem um doente, que, quando chega a hora de partir, apresenta uma melhora súbita, dança, canta, saltita. Mas não passará dali.

Terceiro ano. Um início tenebroso, sombrio; laços quebrados, unilateralmente, mas provocados para que tais medidas extremas fossem tomadas. Novas saídas devem ser criadas, para evitar o sufocamento. A partir daí, estou no meio termo entra a certeza mental que me mantinha são, e a nova vida que me aguardava. Novas saídas foram criadas, ainda não-implodidas, talvez em vias de implosão unilateral; novamente, provocadas. Ou não, talvez seja em comum-acordo, e eu não saberia disso até depois de algum tempo, quando me for permitido refletir sobre tal assunto.

O ano da faculdade, sim. Há algo aí, antes de propriamente começar, que me introduz à nova vida. Talvez não seja entendido propriamente, como já presenciei certa vez. Grato, novamente, não por um elogio, mas um guia. A saída da lanterna dos afogados, o entreposto entre o antigo e o novo, foi guiado.

O ano melhorou a medida que prosseguia.

Sempre fui meio café-com-leite. Café.

Segundo ano na faculdade: a (in)certeza do que fazer. Continuar, a decisão tomada.

O ônibus, nome até de filme. O metrô. Minha idiotice sem tamanho. Sempre, sem tamanho;

Engraçado como eu me divirto, sou meio-Amélie Poulain. Prazeres amélie-poulain, pequenos prazeres, nunca terminados, sem horizonte para se olhar. Imagino se serei como Amélie, que encontra seu Nino(a) no final, ou se serei Amélie eternamente. Vivendo na surdina, tendo o coração batendo aceleradamente, às vezes, dando de Zorro, em outras.

Descubro (de mim) mais a cada dia, para descobrir que ainda sei muito pouco. E descubro opiniões de outros que me criam mais dúvidas, e que me fazem adentrar mais uma vez um estado de insanidade mental. Tal qual Alice que entra no país das maravilhas, que de maravilhas não tem muita coisa; a loucura pura. Frustrações, rejeições, vontades, desejos, prazeres-amélie, tudo conspirando a favor, ou não; tudo é invenção da minha cabeça, cada vez mais insana, por culpa absolutamente minha.

Pequeno príncipe? De nobre não tenho nada. Semelhanças, porém, encontradas. Talvez eu tenha me tornado convencido de que sou superior sem perceber. Talvez eu seja algo que nem eu mesmo sei, e que participa de algum plano indefinido, pois há os que dizem que eu não sou desse planeta, dessa galáxia, tal qual le petit prince, assim mesmo com minúsculas, para denotar minha não-especialidade em qualquer coisa. Novamente, sinto-me como Claireece, (sobre)vivendo, mas não vivendo. Sinto-me como velho, não pelos meus gostos. Sinto-me como criança, mas não pelos meus desejos. Enfim, sinto-me deslocado a maior parte do tempo. E as pessoas só entendem parte de mim. Cada uma, uma parte diferente.

Gostaria de ter alguém que me entendesse em toda minha extensão. Isso poderia ser uma carta de suicídio. Um suicídio mental. Às vezes, eu queria desmaiar, para parar de pensar um pouco. Ou será que até no mundo dos desmaios eu pensaria? Pois no mundo dos sonhos, eu não tenho paz.

Só queria ser um enfant terrible. Deve ser o máximo. Ou um bon vivant.

No fim de tudo, só queria viver uma aventura, e alguém para vivê-la comigo.

Chukran.

P.S. Nem tudo que eu falo é verdade; minto compulsivamente.

Comentários

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

despindo a fantasia de tecnoburocrata

pluvious metropolis

arrastado pelos acontecimentos da semana