Poesia, Ópera e Masturbadores - Aniversario do meu pai!
Acordei 3 minutos antes do despertador tocar. Olhei o relógio, 9:27. Afundei a cabeça no travesseiro buscando mais alguns minutos de sossego. 9:30 aquela porcaria começou a estardalhar. Levantei em um pulo e o soquei no escuro. Calou-se na hora, sem xingar, segurando a dor (não eu, o despertador!)... Deitei-me.
9:35 o alarme do celular disparou com seus tons crescentes. Porrada nele também.
9:40 terminou o 'snooze' do despertador (ou seja, ele se recuperou das agressões anteriores e criou coragem para tentar de novo), voltando a fazer barulho. Assim como o celular, agora no toque do segundo alarme. Uniam-se em rebelião os cretinos...
Costumo colocar vários alarmes seguidamente, sei como sou e como inconscientemente me livro de todos os empecilhos para continuar a dormir. Para que algo ou alguém me levante, tem de ser perseverante.
Ergui-me da cama lá para as 10... Até então continuei a me irritar e calar todos os sons que tentassem me despertar.
Vesti-me rapidamente e despejei um Toddy goela abaixo. Liguei para o Caio e nada de ele atender. Tentei mais 6 vezes. Não que eu seja neurótico, mas se ele ainda estivesse dormindo, talvez acordasse. Já batia a hora na qual tinhamos combinado nos encontrar no Bon Marche, 10:30, mas eu não sairia de casa sem saber se ele também estava indo. Por fim, ele retornou as chamadas e disse que chegaria atrasado. Parti.
Nos encontramos lá e às 11:00 pegamos o ônibus para o centro. 328 especial com ar condicionado.
Descemos próximos ao IFCS da UFRJ. O Caio queria passar por lá para tirar um documento que permitiria que, como estudante, ele pagasse meia entrada. O departamento de Relações Internacionais não estava aberto e não obtendo o tal documento, fomos para o CCBB, já com o horário apertado.
Entramos na fila às 12:05. O primeiro espetáculo da série 'Toda Palavra é Música' começava às 12:30. Conseguimos comprar os ingressos, passamos na livraria do CCBB rapidamente, bebemos uma água e subimos para o Teatro II, no segundo andar.
Eramos os mais novos em uma platéia de idosos. Depois de alguns anúncios e recomendações, uma voz ao fundo preparou-nos para o que iríamos desfrutar.
Ao breu uma luz se acendeu e um homem surgiu ao lado do piano. Sentou-se e deslizou os dedos pelas teclas. O som sustentou a atmosfera densa da sala até que outro espectro intensificou-se e, àpenas alguns metros de mim, um homem de terno e cabelos revoltos rompeu em palavras leves e logo proclamava:
"Oh ! Que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!"
E continuou pelos versos do poema 'Meus oito anos', de Casimiro de Abreu...
No fim, após a repetição da primeira estrofe, descondençou-se o enfoque sobre o ator e, ao palco, figurou-se uma jovem mulher. Ela tinha os cabelos duros em um arranjo fantasmagórico e o vestido longo escuro, despencando até a canela. O tom do piano subia e descia, mas agora diferente, cadenciava a gente até a vertigem do primeiro agudo. A ópera começou e, sem esconderijo aparente, tentei aproveitar. Para mim, quase sempre soa como um monte de lamentações infindáveis e estéricas... E aquelas, ainda eram em alemão!
A mezzo-tenor que se apresentava fazia expressões exageradas e arregalava os olhos de forma excruciante.
Mas tudo bem, depois daquele dueto, o ator Fernando Eiras voltou e proclamou outra composição de Casimiro de Abreu. Essa falava a respeito de uma bela e hipotética mulher, 'Desejo', era o nome do poema.
Assim se seguiram entreatos de poesia e ópera. E em seguida, falou-se um pouco sobre Vinicius de Morais, seus textos e músicas.
O ator Fernando Eiras 'era' o próprio poeta, gaguejava e repetia trechos à revelia... Jogava as folhas lidas pelo chão e usava de uma profunda entoação para entoar a poesia.
Ao falar sobre Vinicius, em algumas passagens sua voz se estendeu e também ele começou a cantar. Saindo do script, em dado momento, ele nos chamou a o acompanhar, cantando:
"Eu, não ando só, só ando em boa companhia.
Com meu violão, minha canção e a poesia."
E por mais algumas vezes os vovôs e eu repetimos esse trecho. O caio não. Ele já não estava gostando da interpretação afetada do poemas, não entraria nessa de cantoria.
Depois - Mais ópera! Ao todo eram 4 cantores, que solaram e depois se apresentaram em duplas.
Ao fim, houve uma homenagem à Cláudio Santoro, um compositor e maestro brasileiro. O tacanho do tenor soltou a voz e cantou em português. Mas as palavras ainda eram desfiguradas e ele puxava um 'r' forte, como se faz em alemão... Acho que ainda não estou preparado culturalmente para gostar de ópera.
Aplausos, aplausos... As portas se abriram e seguimos para a escada, que estava interditada. Ficamos perto dos elevadores, aguardando, e logo estávamos no meio de uma floresta de copas brancas. O Caio sugeriu que fizéssemos a gentileza de deixar os velhinhos descerem primeiro e, como seriam muitas gentilezas, decidimos ir ver as exposições que se exibiam naquele andar.
Havia uma exposição de quadros sobre a paz. Um deles consistia em uma raposa branca rudimentar pintada em uma tela enorme; ao fundo palavras desformes nomeavam a obra, o autor e alguns problemas da atualidade. As outras pinturas em sua maioria não iam muito além de pombas; quer dizer, havia também um quadro intitulado 'Paz em Ipanema', que representava a orla de Ipanema sem nenhum carro nas ruas. Uau!
A outra exposição era em fotos e sobre a fome. Algumas eram muito boas, como por exemplo a de uma abatida mulher negra, daquelas que aparentam ter muito mais idade do que realmente têm, segurando uma panela vazia, as lágrimas aos olhos... Essa me atingiu.
Descemos e deixamos o CCBB. Já eram mais de 14:00. Em um boteco qualquer sentamos eu e Caio e comi um salgado. Planejávamos para onde iríamos quando ele viu em seu celular que alguém o telefonara. O número era o da minha casa e provavelmente estavam a me procurar. Eu desligara meu celular ao entrar no teatro, isso explicava os fatos. Tratei de ligá-lo e liguei para casa. Minha mãe me atendeu afoita:
- Onde você está!? Você não deixou um recado de manhã dizendo que voltaria cedo? Tá todo mundo te esperando para almoçar!
- É... Mas... Hum? todo mundo me esperando? Por quê?
- Por que será? Porque é aniversário do seu pai...!?
- Ca-ra-ca!
Voei com o Caio até o ponto de ônibus. Ele almoçaria na casa da avó dele. Despedi-me, peguei uma van e voltei para a Ilha. Meus pais me esperavam na praça do avião. Entrei no carro e abracei desajeitadamente meu pai, que sentava no banco do carona. Minha mãe estava enfezada comigo, mas depois a raiva foi evaporando.
Seguimos pro Barra Shopping, comemos no Outback e depois assistimos um filme. Quer dizer, sobrou para minha mãe ver 'A Era do Gelo 3' com a minha irmã menor. Meu pai, meu irmão e eu fomos ver Brüno.
Basicamente, esse filme é uma sátira a comunidade homofóbica, ao mundo da moda e a cultura norte americana feita pelo mesmo comediante que interpretou o jornalista cazaquistanês Borat no filme de mesmo nome.
Havia momentos literalmente escrotos no filme, mas deu para rir em alguns outros. Fiquei tentando descobrir quais das cenas eram completas armações e quais eram apenas parciais (que sem graça esse cara chamado Rudy). Enfim, a briga do professor de caratê contra o Bruno usando masturbadores foi legal... "E se for o preto? Tem diferença?"
Depois disso tomamos café por ali, roubei um pouco do chocolate quente da minha irmã e voltamos para casa debatendo os filmes.
Foi um dia legal.
9:35 o alarme do celular disparou com seus tons crescentes. Porrada nele também.
9:40 terminou o 'snooze' do despertador (ou seja, ele se recuperou das agressões anteriores e criou coragem para tentar de novo), voltando a fazer barulho. Assim como o celular, agora no toque do segundo alarme. Uniam-se em rebelião os cretinos...
Costumo colocar vários alarmes seguidamente, sei como sou e como inconscientemente me livro de todos os empecilhos para continuar a dormir. Para que algo ou alguém me levante, tem de ser perseverante.
Ergui-me da cama lá para as 10... Até então continuei a me irritar e calar todos os sons que tentassem me despertar.
Vesti-me rapidamente e despejei um Toddy goela abaixo. Liguei para o Caio e nada de ele atender. Tentei mais 6 vezes. Não que eu seja neurótico, mas se ele ainda estivesse dormindo, talvez acordasse. Já batia a hora na qual tinhamos combinado nos encontrar no Bon Marche, 10:30, mas eu não sairia de casa sem saber se ele também estava indo. Por fim, ele retornou as chamadas e disse que chegaria atrasado. Parti.
Nos encontramos lá e às 11:00 pegamos o ônibus para o centro. 328 especial com ar condicionado.
Descemos próximos ao IFCS da UFRJ. O Caio queria passar por lá para tirar um documento que permitiria que, como estudante, ele pagasse meia entrada. O departamento de Relações Internacionais não estava aberto e não obtendo o tal documento, fomos para o CCBB, já com o horário apertado.
Entramos na fila às 12:05. O primeiro espetáculo da série 'Toda Palavra é Música' começava às 12:30. Conseguimos comprar os ingressos, passamos na livraria do CCBB rapidamente, bebemos uma água e subimos para o Teatro II, no segundo andar.
Eramos os mais novos em uma platéia de idosos. Depois de alguns anúncios e recomendações, uma voz ao fundo preparou-nos para o que iríamos desfrutar.
Ao breu uma luz se acendeu e um homem surgiu ao lado do piano. Sentou-se e deslizou os dedos pelas teclas. O som sustentou a atmosfera densa da sala até que outro espectro intensificou-se e, àpenas alguns metros de mim, um homem de terno e cabelos revoltos rompeu em palavras leves e logo proclamava:
"Oh ! Que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!"
E continuou pelos versos do poema 'Meus oito anos', de Casimiro de Abreu...
No fim, após a repetição da primeira estrofe, descondençou-se o enfoque sobre o ator e, ao palco, figurou-se uma jovem mulher. Ela tinha os cabelos duros em um arranjo fantasmagórico e o vestido longo escuro, despencando até a canela. O tom do piano subia e descia, mas agora diferente, cadenciava a gente até a vertigem do primeiro agudo. A ópera começou e, sem esconderijo aparente, tentei aproveitar. Para mim, quase sempre soa como um monte de lamentações infindáveis e estéricas... E aquelas, ainda eram em alemão!
A mezzo-tenor que se apresentava fazia expressões exageradas e arregalava os olhos de forma excruciante.
Mas tudo bem, depois daquele dueto, o ator Fernando Eiras voltou e proclamou outra composição de Casimiro de Abreu. Essa falava a respeito de uma bela e hipotética mulher, 'Desejo', era o nome do poema.
Assim se seguiram entreatos de poesia e ópera. E em seguida, falou-se um pouco sobre Vinicius de Morais, seus textos e músicas.
O ator Fernando Eiras 'era' o próprio poeta, gaguejava e repetia trechos à revelia... Jogava as folhas lidas pelo chão e usava de uma profunda entoação para entoar a poesia.
Ao falar sobre Vinicius, em algumas passagens sua voz se estendeu e também ele começou a cantar. Saindo do script, em dado momento, ele nos chamou a o acompanhar, cantando:
"Eu, não ando só, só ando em boa companhia.
Com meu violão, minha canção e a poesia."
E por mais algumas vezes os vovôs e eu repetimos esse trecho. O caio não. Ele já não estava gostando da interpretação afetada do poemas, não entraria nessa de cantoria.
Depois - Mais ópera! Ao todo eram 4 cantores, que solaram e depois se apresentaram em duplas.
Ao fim, houve uma homenagem à Cláudio Santoro, um compositor e maestro brasileiro. O tacanho do tenor soltou a voz e cantou em português. Mas as palavras ainda eram desfiguradas e ele puxava um 'r' forte, como se faz em alemão... Acho que ainda não estou preparado culturalmente para gostar de ópera.
Aplausos, aplausos... As portas se abriram e seguimos para a escada, que estava interditada. Ficamos perto dos elevadores, aguardando, e logo estávamos no meio de uma floresta de copas brancas. O Caio sugeriu que fizéssemos a gentileza de deixar os velhinhos descerem primeiro e, como seriam muitas gentilezas, decidimos ir ver as exposições que se exibiam naquele andar.
Havia uma exposição de quadros sobre a paz. Um deles consistia em uma raposa branca rudimentar pintada em uma tela enorme; ao fundo palavras desformes nomeavam a obra, o autor e alguns problemas da atualidade. As outras pinturas em sua maioria não iam muito além de pombas; quer dizer, havia também um quadro intitulado 'Paz em Ipanema', que representava a orla de Ipanema sem nenhum carro nas ruas. Uau!
A outra exposição era em fotos e sobre a fome. Algumas eram muito boas, como por exemplo a de uma abatida mulher negra, daquelas que aparentam ter muito mais idade do que realmente têm, segurando uma panela vazia, as lágrimas aos olhos... Essa me atingiu.
Descemos e deixamos o CCBB. Já eram mais de 14:00. Em um boteco qualquer sentamos eu e Caio e comi um salgado. Planejávamos para onde iríamos quando ele viu em seu celular que alguém o telefonara. O número era o da minha casa e provavelmente estavam a me procurar. Eu desligara meu celular ao entrar no teatro, isso explicava os fatos. Tratei de ligá-lo e liguei para casa. Minha mãe me atendeu afoita:
- Onde você está!? Você não deixou um recado de manhã dizendo que voltaria cedo? Tá todo mundo te esperando para almoçar!
- É... Mas... Hum? todo mundo me esperando? Por quê?
- Por que será? Porque é aniversário do seu pai...!?
- Ca-ra-ca!
Voei com o Caio até o ponto de ônibus. Ele almoçaria na casa da avó dele. Despedi-me, peguei uma van e voltei para a Ilha. Meus pais me esperavam na praça do avião. Entrei no carro e abracei desajeitadamente meu pai, que sentava no banco do carona. Minha mãe estava enfezada comigo, mas depois a raiva foi evaporando.
Seguimos pro Barra Shopping, comemos no Outback e depois assistimos um filme. Quer dizer, sobrou para minha mãe ver 'A Era do Gelo 3' com a minha irmã menor. Meu pai, meu irmão e eu fomos ver Brüno.
Basicamente, esse filme é uma sátira a comunidade homofóbica, ao mundo da moda e a cultura norte americana feita pelo mesmo comediante que interpretou o jornalista cazaquistanês Borat no filme de mesmo nome.
Havia momentos literalmente escrotos no filme, mas deu para rir em alguns outros. Fiquei tentando descobrir quais das cenas eram completas armações e quais eram apenas parciais (que sem graça esse cara chamado Rudy). Enfim, a briga do professor de caratê contra o Bruno usando masturbadores foi legal... "E se for o preto? Tem diferença?"
Depois disso tomamos café por ali, roubei um pouco do chocolate quente da minha irmã e voltamos para casa debatendo os filmes.
Foi um dia legal.
Compartilho esse seu sentimento, que é praticamente um "eu sinto que eu deveria gostar de ópera, mas não rola.."
ResponderExcluirPost interessante, "Uniam-se em rebelião os cretinos..." foi ótimo. auheuaheauh
É, foi um dia de dar inveja, movimentado, cheio de altos e baixos, diferente, construtivo..
Mas eu realmente achei que fosse ver um post sobre o primeiro dia la na ONG.. Eu sei que seu ego adorou ensinar pessoas :D E você é meio sentimental, todo esse contato com "negrinhos com fome" deveria te tocar.. auehauhea
(ps: Não se 'ofenda' com a parte do ego, falo por experiência, haha)
Abraços.
Realmente, o tal de Fernando Eiras, era muito afetado.
ResponderExcluirE a Elisa Lucinda foi muito melhor hoje, apesar do início sem-graça. E as músicas brasileiras cantadas por Adriana Clis são maravilhosas, com ponto para as canções com mais ritmo, como "Dona Janaína".
Esse texto foi postado aqui antes da parada da ONG. Foi na mesma segunda, mas ainda eram 2:00 da manhã! Eu estava com dificuldade de dormir, justamente por causa do que me aguardava no dia seguinte.
ResponderExcluir---
Olha o Caio, cara... Pagando de mestre-da-cultura-discurso-absoluto! Hahahahah... "Elisa Lucinda foi muito melhor"? Nem mesmo você teve coragem de dizer isso depois que saimos de lá. Ela deixou a desejar como proclamadora e só se soltou mesmo quando leu seus próprios poemas. Algo um tanto quanto estranho para alguém que tem uma escola de recitação de poesia.
De qualquer forma, as músicas brasileiras foram realmente melhores. A Adriana Clis se saiu muito bem. E acabamos por concodar, sem querer, que a 'Dona Janaina' era uma das melhores músicas das que foram apresentadas.
bom, pelo menos eu assumi que o início foi sem-graça... mas ela é muito mais animada que o Eiras, que parecia sofrer de alguma coisa enquanto falava-gaguejava.
ResponderExcluirA muito tempo que é Extra e não Bon marche...
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