A viagem do elefante - José Saramago


Folheei-lo pela primeira vez quando resolvi ir a livraria do shopping tomar um café e ler qualquer coisa.
Embora não quisesse de todo, deixei-lo lá... O que diriam os que tenho em casa e estão pela metade?

No máximo, caso por lá outra vez passasse, daria uma "lidinha"... Nada de mais em passar por lá mais vezes... Muito menos programar essas passadas, né? Quem sabe eu pudesse ir alternando os de casa e ele?

Quando ao repô-lo na estante, percebi que invariavelmente, quando se lê um livro, por mais cuidadoso que se tente ser, algumas páginas nunca mais se fecharão como antes. Alguns agora dirão "e dai? o que importa num livro é seu conteúdo". Concordo que o conteúdo seja importante, mas, principalmente em livros de história, aquele aspecto mágico, intocado, o perfeito alinhamento das páginas, o estalar de algumas ao se abrirem e possivelmente aquela leve fragrância onírica... Ah, tudo isso torna a leitura secreta e preciosa.

Por esses motivos achei injusto meter-me entre suas páginas novamente. Sem comprometimento. Não queria deflorá-lo e deformá-lo aos olhos alheios. Talvez, por isso, nunca viesse a ser comprado. Não queria ser o causador de tal covardia. Ele merecia um lar, sendo este o meu ou não.

Mas o destino já misturara todas as minhas escolhas e vontades profundas e temperando-as com outras alheias, servia-me o prato por e de mim preparado. Acabei indo ao shopping com a minha família e, já que minha mãe queria, à livraria.

Peguei o provável último livro do Saramago e li mais algumas de suas páginas. A viagem fluía quando deu a hora de irmos e minha mãe perguntou se eu não gostaria de leva-lo comigo. Aceitei.

Enfim, é um bom conto.
Narra a viagem de um elefante e seu cornaca de Lisboa a Viena no ano de 1551. Ao longo desta, diversos personagens os acompanham e interagem entre si e com eles, e é exatamente essa interação, essa fricção de valores, que constitui um dos aspectos mais interessantes do livro. Por exemplo: Cada uma das chegadas e despedidas de Salomão, o elefante, é um espetáculo. Ninguém na época vira animal semelhante. Era praticamente algo de outro mundo, se é que naquele tempo não poderíamos chamar a Ásia de outro mundo mesmo, as distâncias eram tão diferentes...
Hoje em dia, quem ainda não foi a um Zoológico? Se um Elefante fosse atravessar o seu bairro, você iria vê-lo?
(Lembre-se que ele fede e caga enquanto anda... Fora a multidão de curiosos também fedegosos e as crianças correndo e gritando)
No livro as pessoas cruzam cidades "simplesmente" para ver o Salomão passar.
Simplesmente ou seria mesmo essa oportunidade merecedora de esses e outros sacrifícios?
Adoro tudo que põe a prova a validade das coisas e oferece diferente formas de viver e interpretar o mundo...
Um espetáculo a parte é a forma com que o Saramago conduz a história. Narra os acontecimentos de uma forma mais que pessoal. Dêem uma olhada nesse trecho:
"A caravana de homens, cavalos, bois e elefante foi engolida definitivamente pela bruma, nem sequer se distingue a mancha do extenso vulto do ajuntamento que formam. Vamos ter que correr para alcançá-la. Felizmente, considerando o pouco tempo que ficámos a assistir ao debate de hércules da aldeia, o pessoal não poderá ir muito longe.", como se nós pudéssemos ficar pra trás e perder o final da história. Hahaha, genial.
Pra não falarmos, já falando, dos devaneios que brotam de fatos corriqueiros e reflexões profundas e floreiam o texto com a essência contestadora de um dos melhores escritores portugueses.

Comentários

  1. Bom... gostei bastante desse... é Rudy, seu filão não é o de textos informativos sobre filosofias orientais... definitivamente...

    *Fedegoso faz-me lembrar de O Senhor dos Anéis...

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

despindo a fantasia de tecnoburocrata

pluvious metropolis

arrastado pelos acontecimentos da semana